Carta de um Sapiens a Harari

A leitura da versão em português da primorosa obra de Yuval Harari mostra um texto extremamente agradável de se ler. Já havia tratado dos dois primeiros volumes e prometido novo comentário ao término das lições para o século 21, mas algo que me incomodava desde o começo tornou inadiável escrever esta carta após o capítulo da pós-verdade.

Muito apreciei a descrição das ficções humanas ao longo da história e a maneira como elas serviram para soldar a cooperação entre parte significativa da espécie para o domínio crescente das forças da Natureza. Nas palavras do historiador, a única espécie capaz de pensar coletivamente.

No entanto, pareceu-me precipitada a conclusão da impossibilidade de domínio científico das relações econômicas entre as pessoas, a chamada divisão do trabalho e a apropriação individual dos resultados do produto coletivo.

Isso se expressa principalmente na reiterada afirmação sobre o fracasso do comunismo, aquele que na sua forma primitiva regia o relacionamento dos caçadores-coletores e nos tempos modernos atingiu o status de ciência econômica e política de Estado, esta de forma mais desenvolvida, até onde conseguimos chegar com as ferramentas então disponíveis, na União Soviética liderada por Stalin.

Harari se supera, no entanto, quando atribui como exemplo de pós-verdade o fato de a fome ucraniana de 1932-33 ser derivada das políticas implementadas por Stalin.

Pós-verdade, segundo meu entendimento desta e de outras leituras, refere-se à criação de mitos com um fundo de verdade, para dar credibilidade a mentiras inventadas por sapiens com o propósito de, como bem observado no terceiro livro, acumular poder de uns sobre os demais.

Desde 2008, pelo menos, um relato histórico oposto ao que afirma Harari e outros historiadores anticomunistas está disponível na internet. Todos, e espero que entre eles o excepcional escritor israelense, podem conferir a íntegra trazida por Carlos Lopes, psiquiatra e diretor do jornal Hora do Povo.

São fatos não contestados a condenação de 1,8 milhões de kulaks por destruição de plantações e de gado no processo de coletivização. Esta – o domínio social no campo – era politica de Estado, mas não obrigava ninguém a queimar alimentos antes da transferência de propriedade das terras soviéticas. Daí, é apenas uma ilação bastante exagerada atribuir a Stalin a fome que houve em 32-33.

Do artigo citado resgato o espírito da pergunta final: a safra recorde do ano seguinte foi produto do trabalho de fantasmas? Os soldados do Exército Vermelho chefiado pelo georgiano não pareciam famélicos quando ergueram os trincos dos campos de concentração e hastearam sua bandeira sobre o Reichstag, um minúsculo número de anos depois.

Como afirma Lopes, o assunto foi objeto de estudos de Claudio Campos, o quarto dos próceres brasileiros que ilustram a capa do nosso blogue. A ambos, nosso agradecimento pelos ensinamentos. E a Yuval, nossa gratidão pela oportunidade de voltar a um tema fundamental para o entendimento da nossa história recente.

Publicado por Iso Sendacz

Engenheiro Mecânico pela EESC-USP, Especialista aposentado do Banco Central, diretor do Sindicato Nacional dos Funcionários do Banco Central e do Instituto Cultural Israelita Brasileiro, membro da direção estadual paulista do Partido Comunista do Brasil. Nascido no Bom Retiro, São Paulo, mora em Santos.

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