
Ruchir Sharma
Presidente do conselho da Rockefeller International. Seu livro mais recente é “What Went Wrong With Capitalism”. Conheça o seguinte artigo (Balor, 28/07/26):
A divulgação do relatório do Produto Interno Bruto (PIB) dos Estados Unidos mostrou o crescimento econômico do país voltou a só superar os 2%. No entanto, você não verá isso ser corroborado pelos indicadores sobre o humor da população. Os consumidores continuam abrindo as carteiras, apesar de a diferença entre o quanto eles gastam e o pessimismo que dizem sentir em pesquisas nunca ter sido tão alta.
Atualmente, as duas principais pesquisas sobre os consumidores, a do Conference Board e a da Universidade de Michigan, estão em patamares baixos, típicos de recessão, e não nos que seriam normais em tempos de crescimento firme. Na verdade, nos últimos 30 anos, apenas em duas ocasiões foram registradas leituras mais baixas na confiança do consumidor do que as atuais, uma delas durante a crise financeira mundial de 2008.
É possível ver o mesmo tipo de desconexão em indicadores importantes sobre a confiança empresarial. Em várias ocasiões durante a pandemia, os índices ISM sobre as empresas industriais e de serviços sinalizaram recessões, que nunca se materializaram. As novas pesquisas mais amplas da S&P sobre as empresas têm ficado mais próximas da realidade, mas apesar de uma recente recuperação, todas essas leituras continuam mais fracas do que quadro real de crescimento da economia.
A divulgação mensal das pesquisas ainda recebe muita atenção na imprensa e em Wall Street, o que é um tanto estranho, já que os resultados estão essencialmente comprometidos. A queda nas taxas de participação nessas pesquisas distorce as conclusões. As plataformas de relacionamento social on-line parecem gerar insatisfação independentemente da velocidade de crescimento da economia. Em um ambiente polarizado, eleitores partidários sempre acham que as condições são terríveis quando um partido rival está no poder. Por esses e outros motivos, estudos recentes concluíram que a confiabilidade das principais pesquisas diminuiu não apenas nos EUA, mas também na região do euro e no Reino Unido.
Talvez o mais significativo seja que as pesquisas são naturalmente distorcidas pela crescente desigualdade. Em contraste com os números agregados de crescimento do PIB, as pesquisas dão peso igual a cada entrevistado. Portanto, elas nunca vão capturar ou prever a extensão total do crescimento do PIB, quando o crescimento depende cada vez mais dos gastos de poucos. E é isso que ocorre agora. Nos EUA, os 10% mais ricos representam metade do consumo. Há 30 anos, representavam um terço. Não deveria causar surpresa que a maioria soe pessimista.
A divisão política, após anos se ampliando, também atingiu extremos gritantes. Por qualquer critério, da inflação ao desemprego, a economia dos EUA em 2026, sob Donald Trump, parece estar praticamente igual ao que estava em 2024, o último ano sob o presidente Joe Biden. No entanto, a proporção de eleitores para os quais a economia está em condições muito ou razoavelmente boas caiu nesse curto período de 70% para 5% entre os democratas, enquanto subiu de cerca de 5% para 70% entre os republicanos.
Desde 2016, o tom das notícias econômicas tornou-se “desvinculado” do crescimento do PIB e ficou cada vez mais negativo, o que pode ajudar a explicar os persistentes baixos números da confiança do consumidor, de acordo com um relatório do centro de estudos Brookings Institution. Ao mesmo tempo, a badalação em torno ao estilo de vida dos super-ricos nas plataformas sociais on-line deu a quase todos motivos para se sentirem inadequados em comparação.
Então, o roteiro sofreu uma reviravolta: nos últimos meses, a confiança começou a aumentar entre os americanos de maior renda, enquanto as ações atingiam novos recordes, mas continuou em queda entre os consumidores de menor renda, desgastados pela inflação mais alta. A proporção dos consumidores que dizem estar em pior situação em razão da inflação deu um salto desde a pandemia, de 10% para 40%.
As pesquisas empresariais também mostram rachaduras. O foco das principais pesquisas no setor da indústria está nas grandes empresas, mais aptas a lidar com as incertezas geradas pela inflação do que as pequenas. Recentemente, o ânimo dos grandes fabricantes se recuperou um pouco, mas as pesquisas com foco nas pequenas empresas mostraram uma queda contínua, acompanhando o humor dos consumidores de menor renda.
Antes de uma recente alta, a pesquisa ISM estava em queda, em meio a um mercado acionário em alta, o que é altamente incomum – e um indicador enganoso. Mesmo agora, as pesquisas sobre a indústria sinalizam retornos de mercado e lucros menores do que os resultados reais. O Federal Reserve (Fed, banco central dos EUA) também começou a duvidar do valor preditivo das pesquisas, tendo em vista que, nas palavras do ex-presidente Jay Powell, os americanos continuam a manifestar visões “pessimistas” sobre a economia “e depois saem para comprar um carro novo”.
Isso é mais do que o caso de um clima momentâneo de “vibes” negativas, como alguns agora descrevem o fenômeno. Os resultados pessimistas das pesquisas são um reflexo da frustração com falhas reais em um sistema que muitos veem com estando armado em favor das pessoas mais ricas e das maiores empresas. Portanto, até que o sistema mude e crie um senso maior de justiça, as pesquisas de confiança econômica terão pouco poder preditivo.
Tradução de Fernando Nogueira da Costa em Cidadania&Cultura, sob o título “Por que as pesquisas perderam sua relevância“.

2 comentários em “Disparidades entre indicadores econômicos e a percepção popular nos EUA”