O tempo, a política e a ilusão da verdade imediata

João Antônio da Silva Filho

“Palavras podem emocionar, mobilizar e até convencer; mas é a prática que lhes confere credibilidade.”

Entender o tempo sempre foi um dos grandes desafios da condição humana. Esperar, apressar ou decidir são atitudes que se relacionam diretamente com as nossas expectativas em relação ao tempo. Em determinadas circunstâncias, a espera se revela prudente; em outras, a urgência impõe a necessidade de acelerar os passos. Entre esses extremos encontra-se a difícil arte de decidir. É justamente o ajuste entre tempo e circunstâncias que costuma orientar as escolhas mais equilibradas.

A experiência humana ensina que a sabedoria reside no equilíbrio. Entre a pressa e a espera, entre a razão e a emoção, entre o impulso e a reflexão, surgem as condições necessárias para decisões mais consistentes. A pressa desafia o tempo; a espera procura administrá-lo; e a decisão, em alguma medida, representa a tentativa de dominá-lo. Decidir é escolher o momento adequado para agir diante das circunstâncias concretas da vida.

Na política, entretanto, essa lógica raramente opera da mesma forma e velocidade. O tempo político possui dinâmica própria e corre em velocidade muito superior ao tempo comum da vivência coletiva. Governos, partidos, lideranças e grupos de interesse disputam permanentemente a interpretação dos fatos, buscando influenciar a opinião pública antes mesmo que os acontecimentos amadureçam ou que suas consequências possam ser devidamente compreendidas.

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Em tempos de velocidade estonteante, nos quais as narrativas frequentemente chegam antes dos fatos e as emoções antecedem as evidências, o cidadão precisa exercer uma atitude crítica e vigilante. Mais importante do que ouvir o que os políticos dizem é observar o que fizeram, o que fazem e o que são capazes de realizar.

Por isso, a melhor forma de distinguir a verdade da propaganda, o compromisso autêntico da conveniência momentânea e um projeto político consistente da mera retórica eleitoral continua sendo a coerência histórica. É nela que discurso, programa, ação governamental e resultados concretos se encontram e se submetem ao julgamento da realidade.

Palavras podem emocionar, mobilizar e até convencer; mas é a prática que lhes confere credibilidade. Quando promessas, valores e ações caminham na mesma direção, a política fortalece a democracia e amplia a confiança pública. Quando se afastam, abre-se espaço para a manipulação, para a desinformação e para a corrosão da própria legitimidade democrática.

Em tempos de aceleração permanente, nos quais as narrativas frequentemente chegam antes dos fatos e as emoções antecedem as evidências, a coerência entre o que se diz, o que se propõe e o que efetivamente se realiza permanece como o critério mais seguro para aproximar o discurso da verdade. Afinal, o tempo político pode acelerar acontecimentos e interpretações, mas somente a consistência entre programa e prática é capaz de resistir ao julgamento da história.

João Antonio da Silva Filho — mestre em filosofia do direito, doutor em direito público e conselheiro do Tribunal de Contas do Município de São Paulo e diretor da Associação Nacional dos Membros dos Tribunais de Contas do Brasil — ATRICON.

Publicado por Iso Sendacz

Engenheiro Mecânico pela EESC-USP, Especialista aposentado do Banco Central, diretor do Sindicato dos Escritores no Estado de São Paulo e da Engenharia pela Democracia, conselheiro da Casa do Povo, Sinal, CNTU e Aguaviva, membro do Partido Comunista do Brasil. Foi presidente regional e diretor nacional do Sinal. Nascido no Bom Retiro, São Paulo, mora em Santos.

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