Inês Bari, duas crônicas

A escritora caiçara Inês Bari tem vasta produção literária em seu Inesplicando, que traz reflexões e crônicas sobre o dia a dia, vida cotidiana e observações da autora.

QUANDO EU ABRI O COFRE…

A casa da tia Zilda era um museu. Poltronas de veludo desbotado, com o entorno barroco, dourado. Um aparador que ela chamava de Itajér. Em cima dele, duas garrafas de vidro bico de jaca. Uma com menta. Outra, Anis. Sabores infantis. 

Às vezes, ela me deixava colocar o dedo indicador e degustar o licor. Havia também um tapete de pele de carneiro vermelho. Vasos de murano, italianos. Muitos quadros e enfeites antigos. 

O objeto que eu mais gostava era um cofrinho batizado por ela de “barrigudinho”. Feito de coco com uma fechadura de aço no umbigo. Eu adorava aquilo. A Tia Zilda abria o barrigudinho e eu libertava todas as moedinhas, sem me importar se valiam muita ou pouca coisa. 

Outro objeto que despertava minha atenção era um Dom Quixote, de ferro! Ficava sobre a mesa. Inspirador. Embora eu estivesse longe de compreender Cervantes. E assim seguia a viagem fantástica, descobrindo os verdadeiros tesouros da casa da Tia Zilda. Em cada canto, um objeto curioso. 

No final da visita, o sorvete de mamão que ela trazia numa forminha de plástico com um palito no meio. Eu devorava inteiro. E antes de ir embora, corria para o quarto antigo para ver de perto o cofre de ferro que ficava lá meio escondido. Ninguém, nunca, havia comentado nada comigo. O que teria lá dentro? Mapas? Enigmas? Poções de bruxas ou feiticeiros?   

Estremeci de medo, quando tia Zilda me disse ao pé do ouvido os números secretos pedindo que eu guardasse segredo. Dois dois, cinco dois! Giramos os botões. Para um lado e pro outro. Pronto! A porta destravou e se abriu com o leve toque da minha mão.

Pura decepção! Para uma criança em busca de magia, lendas de aventuras e feiticeiros… 

O sonho ficou desfeito. 

O cofre, sem graça, só tinha… dinheiro!

SEM EIRA, NEM BEIRA..

Ali, no Centro histórico de Cananéia , algumas verdades  aprisionadas ainda ecoam nos casarios mais antigos.

Paredes grossas feitas de pedra, conchas e sambaquis guardam  energias densas da escravidão. Muitas casas são hoje rústicos restaurantes e guardam masmorras e tristes objetos no porão. 

Servem peixes e a famosa ostra da região. Mas o som dos escravos parece ecoar em nossas mentes. Há uma angústia em quem visita os velados ambientes.

Cananeia é litoral sul paulista, chamada “Cidade Ilustre do Brasil”. Assim como Paraty, carrega histórias nas velhas pedras ascentadas nas ruas e caçadas.

Foi nesse primeiro povoado que viveu o degredado Cosme Fernandes, homem mau, que chegou aqui, antes mesmo de Cabral. 

A maioria das casinhas coloniais está conservada e é possível ver nos telhados a antiga divisão social.

Os ricos construíam o telhado com três camadas: eira, beira e tribeira. Os mais pobres — nem eira, nem beira! Daí a expressão que retrata alguém sem posses, sem um tostão na carteira, cuja casa só tem um telhado. Sem eira, nem beira! 

A maioria é gente simples, como os pescadores do local.

Um simpático morador nos levou até o Sítio do Cardoso. Lá, a gente chega e escolhe o peixe que vai comer no almoço, feito ali, na hora e no fogo.

Escolhemos paraty e peixe-galo e seguimos em direção à trilha de bromélias e araçás que levava até o mar.

A praia rústica, as armadilhas indígenas feitas de gravetos e os golfinhos ao fundo davam a moldura da natureza preservada e linda.

Uma tartaruga marinha veio nos cumprimentar e dar boas-vindas.

Na volta, o peixe já frito, a cachaça de cataia e um pescador de camarões contando causos do mar.

Tudo simples. Como a gente bem podia ser.

Sem besteira! Nem eira. Nem beira.

Publicado por Iso Sendacz

Engenheiro Mecânico pela EESC-USP, Especialista aposentado do Banco Central, diretor do Sindicato dos Escritores no Estado de São Paulo e da Engenharia pela Democracia, conselheiro da Casa do Povo, Sinal, CNTU e Aguaviva, membro do Partido Comunista do Brasil. Foi presidente regional e diretor nacional do Sinal. Nascido no Bom Retiro, São Paulo, mora em Santos.

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