Não sou doutor

Ilustração original de Alex Ponciano, no Jornal da Orla

Márcio Aurélio, no Jornal da Orla

Um dos grandes “baratos” da vida é a capacidade de nos relacionarmos com outras pessoas. Para isso, basta nos tratarmos como iguais

Não lembro de alguma vez ter me identificado espontaneamente por doutor. “Olá, sou o Dr Marcio Aurélio”. Quando isso ocorreu, foi circunstancial. Mas tenho amigos, que depois de anos de convivência, me chamam de doutor, ou doctor. “Como vai doctor?” Cansei de pedir-lhes para não me chamar de doutor, uma formalidade desnecessária, que me distanciava e me colocava acima deles. Mas aos poucos fui entendendo melhor, que se tratava de um tratamento carinhoso, não uma reverência subserviente. A grande maioria me trata dessa forma.

Vai fazer o quê? Não acho mais tão ruim assim. Afinal, nas últimas eleições para prefeito, me identifiquei dessa forma. Culturalmente, a sociedade identifica os médicos e os advogados como doutores. Isso ocorre desde os tempos das primeiras faculdades de medicina, lá pelos idos do século XIX. Esse hábito surgiu porque ao final do curso de medicina os estudantes eram obrigados a defenderem uma tese e recebiam o título de doutor. O que é comum também em outros países.

Formalmente, o título de doutor é usado para os profissionais que terminaram o curso de doutorado, uma pós graduação de 4 anos, que só pode ser feita após a conclusão do mestrado, e deve ser usado somente em ambiente acadêmico.

Não faz muito tempo, li uma reportagem sobre um advogado, defensor público, motivada por um aviso fixado por ele na porta de sua sala de trabalho.

“Prezados, o nome do defensor público é Renan. Não é doutor. Não é excelência. Não é senhor. É, simplesmente, Renan”. Segundo ele, foi uma medida tomada para demonstrar que não existe relação de hierarquia entre ele e as pessoas que atende.

A intenção do Renan foi das melhores, mas me pareceu meio aborrecida. Carregando heranças da escravatura, este tipo de tratamento está muito presente nas ruas e tende a ser mais usado pelas pessoas mais pobres. São séculos de opressão, o que faz o flanelinha chamar de doutor o motorista do carrão. Uma placa não vai resolver, mas já é um início.

Um dos grandes “baratos” da vida é a capacidade de nos relacionarmos com outras pessoas. Entendermos e sermos entendidos. Para isso, basta nos tratarmos como iguais.

O “doutor” Márcio Aurélio é médico em Santos, escreve semanalmente a coluna Saúde e Sociedade no Jornal da Orla e preside o PDT municipal.

Publicado por Iso Sendacz

Engenheiro Mecânico pela EESC-USP, Especialista aposentado do Banco Central, conselheiro da Casa do Povo, EngD, CNTU e Aguaviva, membro da direção estadual paulista do Partido Comunista do Brasil. Foi presidente regional e diretor nacional do Sinal. Nascido no Bom Retiro, São Paulo, mora em Santos.

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