Balança comercial recorde oculta desequilíbrios graves

Luís Antônio Paulino, no Bonifácio

As exportações brasileiras alcançaram, em 2021, o valor recorde de US$ 280,39 bilhões. O saldo comercial também foi recorde, somando US$ 61 bilhões. São números extremamente positivos que deram uma importante contribuição para o PIB de 2021. É importante, contudo, examinar esses números em detalhes para verificar as forças e fraquezas que eles revelam, assim como as oportunidades e ameaças com que se defronta a economia nacional.

O primeiro fato a ser destacado é que, em 2021, o crescimento dos preços das mercadorias que o Brasil exporta foi determinante para o valor recorde das exportações e do saldo comercial. O aumento nas quantidades vendidas em relação a 2020 foi apenas de 3,5%, mas os preços subiram 28,3%.  Nas commodities metálicas, os preços saltaram 62,4%. Se acrescentarmos que, somada à alta internacional dos preços, houve uma desvalorização significativa do real em relação ao dólar, a renda em reais apropriada pelos exportadores também foi recorde.

O segundo fato a destacar é que as commodities agrícolas e minerais garantiram o saldo positivo da balança, o que revela a enorme competitividade do Brasil nesses setores da economia.  É preciso observar, contudo, que a pauta de vendas ao exterior está cada vez mais concentrada em uns poucos produtos e com seu dinamismo voltado para os bens primários provenientes da agricultura e da indústria extrativa. Minério de ferro, óleos brutos e cobre somaram US$ 78,1 bilhões das exportações, mais de um quarto do total. Se a eles forem acrescidos, soja e café não torrado, mais farelo de soja e carnes de aves, as vendas somam US$ 137 bilhões. Ou seja, apenas sete categorias de produtos compõem a metade de tudo o que o Brasil exportou no ano passado. A balança da indústria de transformação, por seu turno, registrou déficit de US$ 53,36 bilhões no ano passado. Apesar do câmbio favorável, as importações da indústria de transformação cresceram mais que as exportações – 35,1% e 26,3%, respectivamente.

Um terceiro fato importante é que o país teve déficits em praticamente todos os mercados compradores relevantes, com exceção da Ásia, onde a participação da China é preponderante. O Brasil teve pequeno saldo negativo em suas transações com a Argentina (de US$ 70 milhões), um resultado negativo pouco maior com a União Europeia (- US$ 1,73 bilhões) e outro, substancial, com os Estados Unidos (-US$ 8,28 bilhões). Ou seja, o bom desempenho exportador do Brasil, hoje, depende quase que exclusivamente da China.  A China assegurou dois terços do resultado comercial, ou US$ 41,4 bilhões. A Ásia compra cerca da  metade dos bens exportados brasileiros (46,3%) e a China, perto de  um terço (32,1%).

Os fatos acima mencionados, de um lado, revelam que a riqueza de recursos naturais e a competitividade da agricultura brasileira são trunfos importantes do Brasil na economia global, mas, por outro lado, evidenciam que a concentração em poucos produtos e poucos destinos é uma vulnerabilidade importante da economia brasileira.  Além disso, o enorme déficit comercial nas transações  de manufaturas é um sintoma preocupante do processo de desindustrialização e reprimarização da economia brasileira. Em seu auge, no final da década de 1970, a indústria brasileira respondia por 30% do PIB; hoje não passa dos 10%.

Sintomático também desse processo de desindustrialização do Brasil é o fato de estarmos perdendo espaço para a China nas exportações para os países vizinhos da América Latina que, ao lado dos Estados Unidos, sempre foram o principal mercado de exportação de produtos manufaturados brasileiros.  Como destaca matéria do jornal Valor (28/01/2022), embora, nos últimos dois anos a China já tenha ficado à frente do Brasil no comércio bilateral com a Argentina e em 2020 ter ficado à frente do Brasil por uma margem inferior a US$ 10 milhões, o que deixou o país asiático e o Brasil com igual fatia de 20,4% no total de US$ 42,4 bilhões importados pelos argentinos, foi em 2021 que a vantagem chinesa ficou clara.

       “Com total de US$ 13,5 bilhões embarcados para a Argentina no ano passado, os chineses ficaram com pouco mais de um quinto – 21,4% – das compras externas do país, um avanço significativo em relação aos 14,3% que detinham em 2011. Os embarques do Brasil para a Argentina, apesar de terem aumentado, o fizeram em ritmo mais lento”. Como destaca a mencionada matéria, “Com vendas de US$ 12,4 bilhões, correspondentes a 19,6% das importações argentinas em 2021, o Brasil levou um tombo na última década. Em 2011, o país detinha 30% das compras externas do sócio do Mercosul, segundo o instituto oficial de estatísticas do governo argentino”.

Conforme também informa o jornal Valor (28/01/2021) “Dos US$ 13,5 bilhões que os argentinos compraram no ano passado de produtos made in China US$ 4,3 bilhões foram em bens de capital e US$ 2,7 bilhões em partes e peças para essa categoria de uso. Do Brasil foram, respectivamente, US$ 1,6 bilhão e US$ 2,4 bilhões, para um total de US$ 12,4 bilhões em vendas ao sócio do Mercosul”.  O restante das exportações brasileiras para a Argentina está concentrado em bens intermediários e veículos automotores.

É errado contrapor indústria e agricultura, como se o avanço de uma implicasse o recuo da outra. Os Estados Unidos, por exemplo, são, ao lado do Brasil, um dos grandes exportadores mundiais de produtos agrícolas e, ao mesmo tempo, abrigam o setor industrial mais avançado do mundo. A participação da indústria no PIB norte-americano também encolheu nos últimos anos, relativamente ao setor de serviços. Mas a diferença em relação ao Brasil é que indústria norte-americana avançou para segmentos de ponta, apoiados em um poderoso sistema nacional de inovação, formado por indústria, universidades, centros de pesquisa e órgão do governo, como o Departamento de Defesa, o Sistema Nacional de Saúde (National Health Service) e a NASA. No Brasil, ao contrário, o que vimos assistindo é o desmonte desse sistema, com cortes de recursos para pesquisa e inovação, degradação e mercantilização do sistema de ensino, do nível básico à pós-graduação, e sujeição da ciência ao negacionismo.

Luís Antonio Paulino é professor associado da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e membro da equipe de colaboradores do portal “Bonifácio”.

Publicado por Iso Sendacz

Engenheiro Mecânico pela EESC-USP, Especialista aposentado do Banco Central, diretor do Instituto Cultural Israelita Brasileiro, conselheiro da CNTU e Aguaviva, membro da direção estadual paulista do Partido Comunista do Brasil. Foi presidente regional e diretor nacional do Sinal. Nascido no Bom Retiro, São Paulo, mora em Santos.

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