Militares da democracia

Os militares que disseram não

Silvio Tendler reúne em si as habilidades de historiador e cineasta. Seus documentários retratam a saga de brasileiros viventes nos anos de chumbo, perecidos ou que ficaram para contar a sua história e restabelecer os fatos que muitos de nós em algum grau presenciamos.

Assim foi com os Militares da Democracia, sete milhares de brasileiros em armas que recusaram homiziar seu próprio povo e protagonizar atos terroristas contra a nacionalidade. Por seu compromisso com o Brasil e a missão constitucional das Forças Armadas foram cassados, centenas deles torturados e muitos assassinados.

Em debate de 21 de Abril, Tendler e convidados comentaram a obra cinematográfica e o heroísmo de tantos militares que honraram a farda que vestiam. Como lembrou Paulo Canabrava Filho, editor dos Diálogos do Sul, Tiradentes também foi um militar que disse não à agressão da corte, sendo não só morto como retalhado pela Coroa portuguesa em exemplar retaliação à Rebelião Mineira. Conduta ruim que se repetiu após o golpe de 1964.

No sentido horário: Paulo Canabrava, Silvio Tendler, Ivan Proença, Eleonora de Lucena, Tais Freire e Adriano Diogo

O hoje professor universitário Ivan Proença foi um dos militares que disse não: escalado para um ato terrorista contra a faculdade de Direito no Rio de Janeiro, que se pretendia atribuir a “comunistas”, recusou-se a bombardear estudantes e professores, assassinando inocentes em nome de uma mentira. Mesmo pronunciado à Justiça Militar, nada ficou registrado em sua ficha, uma história que depende de si próprio para ser conhecida de todos.

Um Estado terrorista, assim definiu Eleonora de Lucena o que se constituiu após a deposição de Jango, quando o presidente constitucional encontrava-se em solo pátrio. Muitos dos militares que defendiam a vida e a democracia foram mortos ou tiveram a carreira dilacerada, lembrou a jornalista. A repetição de táticas e estratégias absolutistas nos dias de hoje não terá sido mera coincidência.

O Deputado Estadual paulista Adriano Diogo integrou a Comissão da Verdade e relatou não só como seus algozes o sequestraram ainda em 1963, como também a sórdida trama do Palácio do Planalto que objetivava explodir o Riocentro em 1971, lotado de gente reunida para um show musical.

Tendler contou à audiência a história do filme: tudo começou quando embarcou em um táxi no Galeão e o motorista se apresentou como ex-marinheiro, banido da Esquadra pelo simples fato de ter participado de reunião comemorativa do segundo aniversário da associação dos praças, ainda em tempos democráticos de março de 1964.

Silvio fez sua a missão de contar a História do Brasil do ponto de vista dos patriotas que preferiram a honra e os princípios republicanos à sujeira dos porões e resistiram de armas e livros na mão contra um obscurantismo que parece não querer calar-se.

Um filme e um debate indispensáveis para lembrar e não esquecer quem somos e porque nem uma distração pode haver quando o inimigo do Brasil atende pelo nada pomposo nome de fascismo.

Democracia é o pior de todos os regimes políticos, com exceção de todos os demais. Winston Churchill, primeiro-ministro inglês.

Publicado por Iso Sendacz

Engenheiro Mecânico pela EESC-USP, Especialista aposentado do Banco Central, diretor do Instituto Cultural Israelita Brasileiro, conselheiro da CNTU e Aguaviva, membro da direção estadual paulista do Partido Comunista do Brasil. Foi presidente regional e diretor nacional do Sinal. Nascido no Bom Retiro, São Paulo, mora em Santos.

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