A gente brasileira presente no livro de Elder Vieira: “Os anos verdes de Lindaura”

Nathanael Braia*

“Os anos verdes de Lindaura” é o título desse livro de contos curtos de Elder Vieira*. Um “livro da gente brasileira”, como a ele se refere o autor em sua primeira obra em prosa.

São 87 contos nos quais desfilam personagens com jeito, linguagem, anseios, angústias, contradições, humor, sonhos, dilemas e saudades da nossa gente.

Ali nos deparamos com seu Nonô, que para se encontrar com Jacira “envergou o terno de linho branco, desenterrou o chapéu panamá e foi se aboletar em sua mesinha cativa no Pedreira”.

Lá está a precariedade do pretendente de Doralice, tentando ser previdente, em uma terra onde as oportunidades rareiam, a calcular suas possiblidades quando acerta um casamento: “já pensava no tamanho dos cômodos, no número de filhos e onde poderia arrumar um emprego e plantar sua esperança”.

Mais adiante nos vemos diante da angústia de uma espera em alguma das nossas insuficiências em termos de saúde pública. “No corredor esperava aflita. Macas iam e vinham. (…) Da sala onde estava seu menino, nenhuma notícia. (…) A fila dos desvalidos era imensa”.

O autor, sem em nenhum momento abrir mão da concisão a que se propôs do primeiro ao último capítulo, aqui e ali nos surpreende com construções poéticas que trazem à tona a emoção de seus personagens. Vemos isso acontecer na passagem na qual um pai tenta orientar os passos de sua filha prestes a se casar, mas já percebendo possíveis desventuras que, para ela, almeja pequenas: “os ferimentos, deixemos aos enfermeiros interiores de cada um. Contente-se em dar um pouco de si como item de curativo”.

Nascido em São Paulo, mas filho de pais sergipanos criado “à base de feijão com farinha, cuscuz com leite e carne de boi”, nesses relatos em que se vislumbra um conteúdo autobiográfico, Elder nos brinda com mais esse contato literário com o nosso Nordeste, presente com sua força em algumas de nossas melhores obras, mais uma vez através do linguajar e dos ambientes que povoam a maioria dessas dezenas de contos nos quais as tramas são por vezes claras e, em outros momentos, enigmáticas, como que convidando o leitor a processar desdobramentos e/ou desfechos, mas sempre com um questionamento da nossa realidade a cada página.

Elder nunca se permite a neutralidade, ao contrário, o livro revela o esforço para traduzir em sua literatura conceitos como os que expressou em uma roda de conversa com a juventude da qual participou em Nazaré Paulista e que foi retratada em matéria publicada na Hora do Povo, sob o título “Elder Vieira: cultura e luta de classes”**. “A resistência de natureza popular e de caráter nacional traduz-se na perspectiva transformadora de nosso ativo simbólico, marcado pela criatividade e inovação, e pela apropriação cultural operada por meio da transfiguração de motivos, temas e arranjos estéticos. Esse binômio dominação versus resistência traduzir-se-á (já que ultimamente estamos sob o império de mesóclises temerárias, mesoclisemos) nas múltiplas dimensões da cultura, e produzirá os resultados mais inusitados”, afirma.

Enfim, é através do olhar de Lindaura que o autor sintetiza a travessia um tanto aturdida e ainda perplexa da gente a quem dá passagem: “Dos olhos de Lindaura, sobram poucas lembranças. Ficam os quadris fartos, as lágrimas muitas, minadas de tantos filhos perdidos; ficam as festas pelas conquistas – poucas, mas significativas – e as perplexidades de tantos caminhos cruzados. Ficam também as revoltas, os passos atrás e as resignações. E ficam os eternos começos, frutos das marchas interrompidas”.

O escritor e poeta Elder Vieira é secretário-geral do Sindicato dos Escritores de São Paulo, secretário de Formação Política do PCdoB no Estado de São Paulo e participou de trabalhos de gestão pública nos Ministérios da Cultura e do Esporte, e nas Prefeituras e Aracaju, Rio de Janeiro e São Paulo

*Publicado originalmente na Hora do Povo, em 27.12.2020.

Publicado por Iso Sendacz

Engenheiro Mecânico pela EESC-USP, Especialista aposentado do Banco Central, diretor do Instituto Cultural Israelita Brasileiro, conselheiro da CNTU e Aguaviva, membro da direção estadual paulista do Partido Comunista do Brasil. Foi presidente regional e diretor nacional do Sinal. Nascido no Bom Retiro, São Paulo, mora em Santos.

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