
Em novembro de 2.002, o filósofo, jurista, jornalista e escritor Gilberto de Mello Kujawski, que completou sua vida em dezembro passado, escrevia no Estadão sobre o resultado das eleições presidenciais daquele ano.
Acompanhe a história, conforme arquivo do Senado Federal:
A tão gabada maturidade democrática demonstrada na disputa eleitoral de 2002 poderia ser sintetizada nesta fórmula singela: foram eleições certamente polarizadas, como têm de ser todas as eleições, mas sem nenhum traço de maniqueísmo.
Polarização sem maniqueísmo. Tradicionalmente, as eleições para presidente da República e governador do Estado, entre nós, foram sempre a luta entre o Bem e o Mal, o combate apocalíptico entre o arcanjo guerreiro e o dragão da maldade. Pois agora nenhum candidato satanizou o outro, ressalvados alguns excessos retóricos de parte a parte. Principalmente no segundo turno houve o maior respeito entre os postulantes do governo e os da oposição, excluídos ataques de caráter pessoal, acusações rasteiras e desqualificações ideológicas mesquinhas.
A alternância no poder foi assimilada no espírito da lógica democrática e a instalação providencial do governo de transição veio colaborar para esfriar os ânimos e procurar posições mais equilibradas e realistas.
Os barbudinhos chegaram ao poder, tenazes e obstinados como sempre, sem brincar em serviço nem admitir contradição, mas bem menos “atacados” e totalmente abertos ao diálogo.
O fenômeno da eleição de Luiz Inácio Lula da Silva deve ser encarado sob três aspectos, indissoluvelmente ligados entre si. Sob o aspecto meramente eleitoral, Luiz Inácio deve sua caudalosa votação a Roseana Sarney, que saiu disparada nas intenções de voto, muito à frente dos demais pré-candidatos. Com a desistência de Roseana, seu eleitorado, perplexo, dividiu-se entre Lula e Ciro Gomes, reforçando os 30<< iniciais do petista, que muitos julgavam o seu teto. Após o insucesso de Ciro Gomes, a maioria dos votos virtuais migrou para Lula, e só pequena porcentagem para José Serra. Somando seu contingente primário com os votos remanescentes de Roseana e Ciro, o presidenciável da estrela vermelha estourou em mais de 60% no cômputo final.
O aspecto eleitoral, isolado, não explica tudo, limitando-se ao processo mecânico de transferência e soma de votos. Por isso o favoritismo de Lula deve ser analisado também e conjuntamente sob seu aspecto político, que envolve a mensagem ideológica do presidenciável, a estratégia de apoios e alianças e o trabalho de convencimento executado pelo marqueteiro Duda Mendonça. A mensagem ideológica sintetiza-se na proposta bastante simplista, para não dizer simplória, da “mudança”, como se o PT detivesse o monopólio da mudança e esta pudesse ser realizada por um passe de mágica. O problema é que a mudança constitui fenômeno menos político do que social, e toda sociedade é lenta, anda sempre a passo de tartaruga. Mudança estrutural não se faz por lei nem por decreto. Ela parte do seio mais profundo da sociedade e só se opera com gradualismo.
Seria injustiça negar ao governo FHC contribuição para a mudança; o que se passou é que ele ficou entrevado, engessado no gradualismo. Quanto à estratégia das alianças do PT, ela foi brilhante, conseguindo misturar água e óleo como se acreditava impossível. E mais brilhante ainda foi o ritual de sedução dos segmentos da sociedade que fugiam de Lula como o diabo da cruz, obra na qual atingiu seu clímax o marqueteiro baiano Duda Mendonça. (Por que razão os marqueteiros políticos mais brilhantes do País são baianos? Quem souber responder a esta pergunta desvendará a metade dos segredos da alma brasileira.
O aspecto eleitoral explica o fenômeno Lula em seu processo meramente mecânico. O ângulo político desvenda esse processo em sua dinâmica, na combinação de forças políticas que impulsionaram a carreira de Lula. Mas ainda é pouco para explicar a vitória esmagadora do líder esquerdista. Nem a herança de votos de Roseana e Ciro nem a mensagem e a estratégia política elegeriam o postulante petista, se ele não fosse Lula. O fator decisivo do desempenho vitorioso de Lula foi ele mesmo, a pessoa de Lula com esse nome, dentro do imaginário social brasileiro. Ao longo de sua acidentada carreira, com tantos altos e baixos, Lula assumiu a tenacidade do João Teimoso, voltando sempre à posição vertical depois de beijar o chão inúmeras vezes. Lula transformou-se no imaginário brasileiro num herói popular, propagando seu prestígio a vastas porções das camadas ditas superiores.
Lula, para começar, é bafejado pela intensa carga afetiva do seu apelido de infância, incorporado ao nome do homem feito e do político de massas: Lula, duas
sílabas que lembram o garotinho de mama, meigo e bochechudo, com cheirinho de leite. Só mesmo em nosso querido Brasil, onde o prenome se sobrepõe ao nome de família e o apelido ultrapassa o círculo da intimidade para o domínio público, poderia aparecer um senhor presidente da República no qual o apelido se consagrou no nome oficial. Aos fotógrafos que o chamavam de Lula, depois de eleito, sem a menor cerimônia, Fernando Henrique corrigiu: “Lula, não, presidente Lula.” Mas Lula vai ter muita dificuldade para acomodar-se à liturgia e à “majestade” do cargo. Ele gosta mesmo é de flutuar, feliz, nos braços do povo. Está mais para ACM do que para FHC. “Não dá para isolar um líder carismático”, como disse o chefe de sua .guarda pretoriana, o fiel delegado Baltazar.
Lula tem tudo para transformar-se (se já não se transformou) num herói de cordel. Ele é o Davi que derrubou com sua funda o Golias conservador e reacionário que impedia sua passagem e a do povo de Deus. Em sua pessoa e por sua vontade, Lula não seria jamais um líder do tipo populista e messiânico. Mas o político é trabalhado pelas forças que o sustentam, e a “onda Lu-la” tem fundo messiânico. “Aparentemente, Lula não contribui conscientemente para alimentar essa rede de crenças arcaicas, mas isso, evidentemente, não depende dele” (José de Souza Martins, USP, Folha de S.Paulo, 3/11/2002).

“Lula” soa assim como “Pelé”. Ele se prepara para ser o Pelé da política. Só falta fazer gol.
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Um comentário em “A hora e a vez dos barbudinhos”