
Flávio Limoncic
Projetos políticos conservadores ou progressistas, de direita ou esquerda, são igualmente legítimos, desde que compartilhem o compromisso com a democracia. Infelizmente, nessas eleições presidenciais, só há um candidato com tal compromisso inequívoco.
Nos últimos anos, o Brasil e o mundo passaram por transformações profundas. Novas configurações familiares surgiram, relações de trabalho se tornaram mais flexíveis, grandes fluxos migratórios ocorreram, maneiras de ser e de viver, até recentemente invisibilizadas e subalternizadas, reivindicaram legitimidade social e direitos civis. Esse conjunto de mudanças tem sido sentido por alguns como ampliação de horizontes e possibilidade de invenção de novos futuros; por outros, como ameaça à sua segurança material e espiritual.
É o campo político dos que sentem as mudanças como ameaças que a extrema direita tem conseguido mobilizar. O objetivo: a imposição de um mundo de ordem e hierarquia, onde cada um tenha seu papel e lugar social definidos, inspirado em uma suposta idade de ouro que se perdeu quando, justamente, papéis e lugares tradicionais foram desafiados. O método: a produção simbólica de inimigos, aos quais devem ser impostos submissão e conformidade. Se preciso, silenciamento e exclusão. O desdobramento: o fascínio pela violência, a obsessão por armas, o empobrecimento do vocabulário e das formas de pensar o mundo, a descartabilidade de vidas e corpos, a pulsão de morte pairando no ar.
Tudo o que vemos hoje antecedeu e preparou, ressalvadas as especificidades históricas, o genocídio nazista dos judeus, porque a morte simbólica precede a morte física. Sabemos bem, genocídios não precisam de câmaras de gás, nem de seis milhões de mortos. Tornar a vida insuportável, ou simplesmente deixar morrer, como estabelecido no ordenamento jurídico internacional, também é genocídio. Não foi o que ocorreu com os Yanomamis, no início da década?
A experiência histórica judaica, como a entendo, torna um imperativo moral defender a dignidade e a vida de todos. O “nunca mais” não pode se referir somente aos judeus. É inaceitável que indígenas, quilombolas, gays, mulheres trans ou quaisquer pessoas sejam colocadas em situação de risco individual e coletivo. A indiferença diante da dor e da morte de outros seria uma traição tanto à dimensão universal da mensagem profética judaica quanto aos que morreram simplesmente por serem quem foram.
Não falo de forma abstrata.
No Yad Vashem, o Museu do Holocausto de Israel, há cerca de 30 Limoncics registrados. Os sobrenomes dos meus outros avós, bastante comuns, milhares. Foram assassinados, simplesmente, por serem quem eram. Judeus. Uma mulher chamada Lea, por exemplo, que vivia na aldeia de Lipcani, hoje República Moldova. Ela pode ter sido assassinada por bala, fome, frio ou exaustão. Pode ter sido abandonada à beira de uma estrada ou jogada em vala comum. Depois do verão de 1941, nada mais se soube a seu respeito. Ou um homem chamado Itec. Entre junho e dezembro de 1941, uma outra aldeia da República Moldova, chamada Marculesti, foi transformada em campo de trânsito de judeus rumo à Transnístria. Nesse intervalo de tempo, Itec foi assassinado. Ele, sabe-se como. Suas mãos foram atadas a um cavalo, que partiu em disparada. Lea era minha bisavó; Itec, meu bisavô.
O Yad Vashem sabe que quem os matou não foi um um regime político de esquerda, mas de extrema direita, assentado nas ideias de sangue e solo, que se valeu de eleições para subverter a ordem constitucional e, apoiado no grande capital, instaurar uma ditadura implacável e homicida. Afirmar a verdade histórica é fundamental no momento em que narrativas irresponsáveis, destituídas de qualquer amparo em evidências, circulam em redes sociais e discursos políticos e nos levam ao perigoso terreno da pós-verdade, onde tudo se torna possível.
Na democracia, ao contrário, todos são iguais, ainda que diversos, podem ser adversários, mas não inimigos, e suas divergências são resolvidas por meio das palavras, não da violência física e simbólica.
A centralidade da palavra, aliás, aproxima a democracia da tradição judaica. Em ambas, o argumento, a persuasão e o respeito à pluralidade de visões são fundamentais. Por isso, na democracia todos têm direito à voz e, no judaísmo, até uma criança pode interpelar deus. Em ambas inexistem autoridades pessoais, mas a impessoalidade da lei, cuja legitimidade deriva de um pacto. A democracia, enfim, converge com o princípio de Tikun Olam, porque é o único sistema político que permite a todos agir para melhorar o mundo, sem medo e de acordo com suas convicções.
Sentir as transformações das últimas décadas como ameaças é tão legítimo quanto senti-las como libertação. Projetos políticos conservadores ou progressistas, de direita ou esquerda, são igualmente legítimos, desde que compartilhem o compromisso com a democracia. Infelizmente, nessas eleições presidenciais, só há um candidato com tal compromisso inequívoco. É de se lamentar, inclusive, que não tendo conseguido produzir uma candidatura viável, a direita democrática se deixe levar pela extrema direita. Corre o risco de ser tragada e desaparecer. Como judeu, brasileiro, brasileiro judeu e judeu brasileiro, tudo isso junto e misturado, vejo o Lula, com todos os seus erros e acertos, como a única alternativa possível. Lula nunca pregou golpe de estado, mesmo quando perdeu eleições; nunca defendeu torturadores e sugeriu violência física ou simbólica contra adversários, tampouco se omitiu diante daqueles que o fizeram. Lula também nunca defendeu ser o Brasil um país de Jesus, porque sabe ser o Brasil o país dos brasileiros, inclusive judeus.
Somente nesse Brasil cabemos todos, sem exceção, com nossas muitas crenças religiosas, orientações políticas, sonhos, vozes, vidas e palavras.
Flávio Limonsic é Professor do Departamento de História, do Mestrado Profissional em História e do Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro. Mestre (1997) e Doutor (2003) em História Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, com bolsa-sanduiche (1999-2000) na Universidade de Maryland. Pós-Doutorado (2011-2012) na Universidade de Michigan. Membro do Grupo de Pesquisa do CNPq Rede de Estudos de História dos Estados Unidos. Principal área de interesse: história dos Estados Unidos no século XX.
Artigo recebido nas redes sociais.

Um comentário em “Uma das razões pelas quais voto no Lula? Porque sou judeu.”