
O Centro de Documentação e Memória da Unesp resgata o levante tenentista em São Paulo, deflagrado a 5 de Julho de 1924, a partir da tese de Maria Clara Spada de Castro, Revolta de 1924 em São Paulo: para além dos tenentes, defendida na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ),
A data, precursora da invencível Coluna Costa-Prestes e da era Vargas, é próxima do feriado estadual relativo aos eventos de 1932, 9 de Julho, em que a oligarquia agroexportadora paulista se contrapôs à Revolução industrializante de 1930. Nos dias de hoje fica mais fácil saber o que levou o Estado à condição de “locomotiva do Brasil”.
Para a autora, 1924 em São Paulo foi um momento no qual uma diversidade de interesses, redes de sociabilidade e solidariedade mobilizaram laços familiares, de amizade e de vizinhança na articulação da Revolta. Esta complexidade formou, naquele contexto específico, um grupo político único, que se movimentou e se organizou de forma própria, reunindo indivíduos e suas várias motivações em torno da oposição ao governo de Arthur Bernardes e ao sistema que ele representava. Vários envolvidos almejavam a ampliação da cidadania, pleiteando salário-mínimo, jornada de oito horas de trabalho, direito de associação e de fundação de escolas, bem como a revogação da lei Adolfo Gordo, que previa a repressão ao anarquismo, a expulsão de estrangeiros e a censura à imprensa.
Vejamos a história do movimento, contada pela Assessoria de Comunicação do CEDEM, da Unesp:
Segundo os planos, os revoltosos buscariam tomar rapidamente a cidade de São Paulo onde uniriam forças e recursos para organização de quatro operações. A primeira seria a ocupação das regiões de Barra Mansa, Barra do Piraí, Entre Rios (atual Três Rios), no estado do Rio de Janeiro, e a Serra do Mar ao longo da Estrada de Ferro São Paulo Railway e da estrada de rodagem que levavam à Santos. Em seguida, haveria uma rápida concentração de forças oriundas de São Paulo e do Sul de Minas. As terceira e quarta operações visariam ocupar e organizar composições que permitissem o rápido deslocamento através das Estradas de Ferro Central do Brasil, Auxiliar (pertencente à Central, que partia da Estação Inicial, atual Alfredo Maia, e ia para Três Rios), Leopoldina e Oeste de Minas.
Então, na madrugada de 5 de julho de 1924, São Paulo foi surpreendida com um levante militar no 4º Batalhão de Caçadores, localizado em Santana, na zona norte da cidade. Na liderança estava o tenente do próprio batalhão, Asdrubal Gwyer de Azevedo. Também estavam Eduardo Gomes e os irmãos Juarez e Joaquim Távora, condenados pela justiça por envolvimento nos levantes que ocorreram no Rio de Janeiro e no Mato Grosso em 1922 e considerados desertores pelo Exército.
Poucas horas depois do levante no quartel em Santana, iniciariam movimentações nos quartéis da Força Pública de São Paulo (FPSP), localizados no bairro da Luz, com o Regimento de Cavalaria, liderado pelo major Miguel Costa, auxiliado pelos tenentes Octaviano Gonçalves da Silveira, Arlindo de Oliveira e Thales Prado Marcondes. Em seguida, a revolta se espalhou pelos outros batalhões da região.
Na Capital Federal, o presidente Arthur Bernardes encaminhou ao Congresso Nacional o pedido de estado de sítio, que foi aprovado e decretado naquele mesmo dia 5 de julho. Também foi ordenada a partida de uma esquadra liderada pelo encouraçado Minas Gerais, acompanhado de dois destróieres, o Bahia e o Alagoas, com um efetivo aproximado de três mil homens que atracariam em Santos. Por meio da Estrada de Ferro Central do Brasil foram embarcadas tropas legalistas do 6º Regimento de Infantaria de Caçapava em direção a São Paulo.
A tese destaca que, além do movimento ocorrido na capital paulista, registros policiais apontaram atos revoltosos em 87 munícipios do interior, e manifestações de apoio em outros 377. Houve ainda, neste mesmo período, levantes armados e conspirações em Sergipe, Pernambuco, Alagoas, Piauí, Ceará, Maranhão, Amazonas e Pará. “Apesar de a Revolta de 1924 ocupar pouco espaço na historiografia, toda essa movimentação político-social teve sua importância e gerou desdobramentos políticos e transformações durante muitos anos na República brasileira”, conclui Maria Clara.

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