
Vereda Saúde percorre “os caminhos da saúde e da literatura”, reunindo crônicas que contam a experiência pessoal do autor com um espectro aplicável a toda a espécie humana. Neste episódio fala das perdas que todos sofremos e traz uma versão do poema de Elisabeth Bishop, retratada na figura ilustrativa.
Quando as pessoas resolvem escrever suas memórias – e eu já o fiz – é natural que valorizem e deem primazia as coisas boas que lhes aconteceram na vida. Não fiz diferente em meus registros, mas ao mesmo tempo não deixo de imaginar como seria uma (auto)biografia em que alguém narrasse suas perdas, não suas conquistas.
Uma arte
Tantas perdas na vida… Enfrentá-las é uma arte.
Algumas parecem já ter vindo ao mundo assim fadadas
De forma que a perda pode não ser algum desastre.
A gente perde, sempre e a cada dia: é fatal cair no laço
Sumidas as chaves de casa, as horas desperdiçadas
Afinal perder é uma arte, nem é tão grande o embaraço.
Cabe aceitar as perdas, sejam distantes ou súbitas,
De lugares, nomes, viagens um dia aproveitadas
Nada. Nada disso poderá ser coisa estúpida.
Eu perdi o relógio de minha mãe, na vida tanto atraso
Três casas em que vivi já estão desocupadas
A arte de perder não será nenhum acaso.
Perdi mais: duas cidades amadas, e mais ainda
Reinos que eu possuí, dois rios, coisas muito apreciadas
Tudo isso, mas nem assim vi minha vida finda.
Mesmo ter perdido você (voz e gestos muito amados)
Não há porque mentir, não está finda a jornada,
Se tal arte de perder é o que resta de certo
Claro que se faça, (anote!), de tudo isso um deserto.

Um comentário em “A arte da perda”