O medo e o retrocesso anticivilizatório

João Antônio da Silva Filho, mestre em filosofia do direito, doutor em direito público e conselheiro do Tribunal de Contas do Município de São Paulo, traz densa análise em seu Traço de União.

O termo anticivilizatório designa ações, projetos ou comportamentos que representam um retrocesso em relação aos avanços humanísticos, éticos e sociais conquistados ao longo da história. Civilização não é um estado natural da humanidade, mas uma construção coletiva e histórica erguida por meio de conflitos, pactos e instituições. Sempre que práticas políticas ou sociais passam a negar a dignidade humana, relativizar direitos fundamentais ou normalizar a violência como método de organização da vida pública, estamos diante de sinais claros de regressão civilizatória.

Nesse sentido, o anticivilizatório não se manifesta apenas em atos de brutalidade explícita. Ele também aparece quando se enfraquecem instituições democráticas, quando se banaliza o discurso de ódio ou quando se reduz o espaço da educação, da cultura e do pensamento crítico. São movimentos que corroem silenciosamente os pilares da convivência democrática e que reintroduzem na vida política a lógica da força, da exclusão e da intolerância.

A frase “Realmente, vivemos tempos sombrios”, associada ao poeta e dramaturgo alemão Bertolt Brecht, tornou-se uma síntese emblemática de uma época em que a razão parecia sucumbir diante da barbárie. Brecht escreveu sob o impacto da ascensão do nazifascismo na Europa, quando regimes totalitários passaram a mobilizar o medo, a manipulação da informação — hoje muitas vezes identificada como fake news — e a violência para impor projetos políticos autoritários.

[…]

O desafio contemporâneo consiste, portanto, em preservar e aprofundar as conquistas civilizatórias acumuladas ao longo dos últimos séculos. Isso significa reafirmar o valor do direito internacional, fortalecer as instituições multilaterais e reconhecer que a diversidade política e cultural do mundo não é um obstáculo, mas uma condição da própria convivência humana.

Defender a civilização, portanto, é reafirmar a política como espaço legítimo de negociação entre as diferenças. É sustentar a diplomacia e o direito — e não a força das armas — como limites indispensáveis ao exercício do poder. É reconhecer, enfim, que a pluralidade não é ameaça, mas fundamento da própria democracia e condição essencial para que a humanidade avance sem sucumbir novamente às sombras da barbárie.

Quando a política abandona o diálogo e se rende à lógica da força, a civilização retrocede. E é justamente nesses momentos que a advertência de Brecht volta a nos interpelar: tempos sombrios não são apenas aqueles em que a violência se impõe — são aqueles em que a sociedade passa a aceitá-la como inevitável.

Veja o artigo completo:

Publicado por Iso Sendacz

Engenheiro Mecânico pela EESC-USP, Especialista aposentado do Banco Central, diretor do Sindicato dos Escritores no Estado de São Paulo e da Engenharia pela Democracia, conselheiro da Casa do Povo, Sinal, CNTU e Aguaviva, membro do Partido Comunista do Brasil. Foi presidente regional e diretor nacional do Sinal. Nascido no Bom Retiro, São Paulo, mora em Santos.

Um comentário em “O medo e o retrocesso anticivilizatório

Deixe um comentário