Lula e a “caixa preta” da inflação

Selic: 1996 a 2015

Republicamos aqui o artigo da Hora do Povo de Junho de 2003, primeiro ano do primeiro mandato de Lula, em que o então ex-deputado federal e ex-diretor do Banco do Brasil Léo da Silva Alves fazia uma recomendação ao Presidente da República, que parece bastante válida para os dias atuais.

Nenhum Presidente da República popularizou tanto os temas de interesse da Nação como Luiz Inácio Lula da Silva. Sua presença física e o costumeiro discurso em inúmeros eventos governamentais no Palácio do Planalto, nos múltiplos seminários de entidades representativas da classe operária ou patronal, nas visitas aos Estados e nos encontros internacionais são a marca registrada do original Chefe da Nação para o qual não há assuntos proibidos ao povo brasileiro.

É hora do Lula abrir a “caixa preta” da inflação, dissecando-a e trocando em miúdo seus componentes. Não basta o presidente do Banco Central do Brasil, Sr. Henrique Meirelles, afirmar que os “agentes econômicos formadores de preços e os reajustes salariais precisam pautar-se pela expectativa de inflação futura e não pela passada”. Não é suficiente a Nota Explicativa do COPOM (Conselho de Política Monetária) justificar a manutenção da estratosférica taxa de juros básica de 26,5% porque se mantém “a inércia inflacionária” e o “núcleo da inflação continua alto”.

Será útil para universalizar o conhecimento da matéria que o Banco Central divulgue seu sofisticado modelo matemático para calcular o “núcleo da inflação” e o compare com a metodologia usada para o mesmo fim pelos governos dos países de economias desenvolvidas.

 Lula deveria pôr a lume quais são os produtos oriundos de monopólios e como tem variado seus preços. Idem em relação aos preços gerados por oligopólios ou grupos cartelizados, caso das distribuidoras de derivados de petróleo e dos postos de gasolina, dos fabricantes dos artigos de higiene e produtos de limpeza, de remédios e outros.

O COPOM dá suma importância às variações dos preços administrados de luz elétrica e telefone, herança das privatizações do governo FHC em que nos oito anos de mandato as tarifas de luz subiram 254%  e as de telefone   509%, evidenciando que os aumentos são parcialmente absorvidos na decomposição dos outros itens da inflação. Para não dar pretexto aos especuladores, o governo Lula e as telefônicas recém acordaram reajuste escalonado de tarifas.

Não há mal em perguntar se as ex-estatais gigantes da mineração e da fabricação de aço vem colaborando com o governo no combate à inflação? A Cia. Vale do Rio Doce obteve fantástico lucro de R$ 1, 1 bilhão no 1º trimestre/2003, a CSN e outras fabricantes de aço tem se beneficiado do maior valor de seus produtos no mercado internacional. Essas empresas reduziram seus preços para os consumidores internos ou reajustaram tabelas para cima?

A Petrobras no 1º trimestre deste ano alcançou formidável e inédito lucro de R$ 5,5 bilhões, para gáudio de seus acionistas. O Real valorizou-se, o preço internacional do petróleo decresceu e aumentou de 20% para 25%  a adição do álcool (mais barato) à gasolina. Por que o governo Lula não dá um tranco no “núcleo da inflação” compelindo a estatal a diminuir significativamente os preços do óleo diesel e do gás de cozinha, com reflexo imediato no custo do transporte de cargas e de passageiros, e na redução proporcional do preço do frete e das passagens?

Só para ilustração, a última ata do COPOM que manteve os juros de 26,5% diz: “A projeção do aumento do gás de botijão subiu de 1,6% para 4,5% e apesar da Petrobras ter mantido o preço o gás  subiu 4,13% para o consumidor final em abril. Mas isso foi compensado pela queda do preço da gasolina no início de maio, o que fez cair de 8,4% para 6% a projeção de aumento total do produto no ano”.

Um dos vilões da inflação “teimosa” seria o arroz importado. Em outras épocas, houve a singela explicação de que o “chuchu” ou o “tomate” eram os responsáveis pela inflação. Com a produção industrial em declínio, desemprego crescente e baixo poder aquisitivo evidentemente ninguém terá o desplante de sequer falar em inflação de demanda. Não se concebe pressão altista de bens de consumo e nem se imagina aquecimento de procura de televisores e geladeiras. Afinal, em que produtos de varejo a inflação está diminuindo devagar, a ponto de assustar o COPOM ?  A propósito, as redes de supermercado tem auxiliado o governo e resistido às pressões de elevação de preços por parte de segmentos industriais e de importados?

Apraz-me lembrar o chega pra lá que o Lula deu no início de seu mandato nos usineiros que, em face da boa cotação internacional do açúcar, estavam propensos  a reduzir a produção do álcool, menos lucrativo naquele instante. Fez-se o “acordo de cavalheiros” e não faltou álcool.

Na gestão Lula há muitos “Conselhos”, “Câmaras Setoriais”, “Grupos de Trabalho”, “Comitês”, etc. Que tal criar um “Conselho de Acompanhamento de Preços e da Inflação”, com gente do governo e do empresariado, com a finalidade de escalpelar todos os itens pontuais que influenciam na formação de preços? Por que quando o Real se deprecia os bens importados puxam a inflação para cima com rapidez, mas demora o efeito contrário ao valorizar-se a moeda? Por que não caiu o preço do pão?

Com seu jeito especial e peculiar, o Presidente Luiz Inácio Lula da Silva  deve agora escancarar a “caixa preta” da inflação, baixar substancialmente os juros básicos (Taxa SELIC) que incidem na dívida pública, manter o câmbio competitivo para garantir elevados superávites comerciais e retomar o desenvolvimento econômico, condição fundamental para obter justiça social.

Publicado por Iso Sendacz

Engenheiro Mecânico pela EESC-USP, Especialista aposentado do Banco Central, diretor do Sindicato dos Escritores no Estado de São Paulo e da Engenharia pela Democracia, conselheiro da Casa do Povo, Sinal, CNTU e Aguaviva, membro do Partido Comunista do Brasil. Foi presidente regional e diretor nacional do Sinal. Nascido no Bom Retiro, São Paulo, mora em Santos.

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