Silva Jardim, Memórias e Viagens apud Carlos Lopes in Hora do Povo

No início de 1888, o jovem republicano Silva Jardim reuniu a sociedade caiçara no Teatro Guarani, para discorrer sobre o plebiscito sugerido pela Câmara Municipal de São Borja(1) (RS).
Segundo ele, era importante que “se consultasse a nação se convinha aos seus interesses o terceiro reinado ‘sendo a herdeira do trono uma princesa fanática casada com um príncipe estrangeiro”,
O próprio orador apontou sobre o comício, cujos efeitos se fizeram sentir nos meses seguintes com a Abolição e a Proclamação da República
7 horas da noite. Tinha rapidamente depositado um beijo sobre a fronte de minha mulher, olhado em despedida os meninos, revisto um instante todo o meu assunto e toda a situação, numa espécie de concentração mental dissimulada, e saíra.
Quando, um quarto de hora depois, entramos alguns no Teatro Guarani, o local escolhido para a reunião, muito sofrível como teatro de província, encontrei já o espaçoso salão da plateia repleto de uma enorme massa de todos os partidos, classes, posições, fortunas e nacionalidades. Estava, entretanto, sereno, o bastante para poder ainda lançar, através do pano de cena, um rápido olhar sobre o teto, excelentemente pintado por um artista sem grande preparo, mas de um talento genial, Benedito Calixto, justamente quando não tinha estudo algum, recém-vindo de uma pequena povoação da marinha. O teto realçava pela muita luz, no meio daquele burburinho de vozes humanas.
Era a primeira vez que me achava diante de um tão grande auditório. Uma dezena de amigos estava comigo no palco, e outros vinham alternadamente apresentar-me seus cumprimentos.
Quando cheguei à tribuna, e olhei a multidão, senti esse inexplicável acanhamento que sente o homem diante da superioridade do povo, que representa a Pátria; é essa invasão insensível da alma popular na alma do orador, que estabelece a simpatia entre este e os ouvintes. Fui recebido por uma chuva de aplausos, sem nenhum protesto; e enquanto cada um se preparava para ouvir e o silêncio se fazia, senti-me suavemente aquecer ao calor da animação popular, sem perder a serenidade necessária para a sondagem contínua da impressão que as palavras produziam, e para não cair em divagações ou perder-me, esquecendo a filiação dos assuntos.
(…)
Pouco a pouco, o público se anima, anima-se o orador, e daí por diante segue-se o discurso, durante duas horas, ora movimentado pela sátira, ora serenado pela demonstração, ora exaltado pela apóstrofe; segue coberto de interrupções, de aplausos entusiásticos, de risos estrepitosos, que dificultavam a mesma exposição. Levados pelo contágio os ditos monarquistas haviam rido à vontade, acompanhando o combate e o ridículo às mesmas instituições que diziam sustentar.
Os Braganças e os Orleans haviam sido largamente analisados; tinha-se passado em revista o estado de saúde de Pedro II, o seu reinado, o de seu pai, a dinastia dos Orleans, o conde d’Eu, a evolução das aspirações liberais do Ocidente e do Brasil, a individualidade da Princesa regente, os perigos do terceiro reinado; e, quando senti o espírito popular assaz aquecido, mais por seu próprio entusiasmo que pela minha palavra, terminei, erguendo-me o possível ao assunto, propondo a moção de apoio ao ato dos vereadores de S. Borja, e de protesto contra o ato do governo imperial.
(1) A moção do vereador republicano Aparício Mariense foi aprovada, depois de vários debates, em 13 de janeiro de 1888, causando uma comoção nacional.

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