
Recém completos os seus primeiros vinte anos de vida, então há oito anos no Brasil, José Aron Sendacz, que hoje completaria cento e quatro desde o seu nascimento em Varsóvia, expressava sua preocupação com o Acordo de Munique, em que Inglaterra e França “apaziguavam” o imperialismo alemão na questão dos sudetos, e seu desejo número um de paz no mundo.
Da sua pena, em idishe, saiu o poema Fridn (23.12.1938) Reproduzimos as versões transliterada e em português, a crédito de Hugueta Sendacz, como um agradecimento a quem tanto contribuiu com a paz no mundo.
PAZ
Oh paz, belo sonho dos povos,
Eras a mais preciosa para mim,
Eu como milhões, sonhava contigo,
Como gerações almejavam por ti.
Porém, quando devo falar de ti agora,
Sinto apenas ódio, sinto apenas ira,
Eras para mim como uma bela virgem,
Agora te tornaste uma mulher de rua.
Que, qualquer um que queira,
Pode, ainda, o sangue pingando nas mãos,
Sorrir para ti com um ranger dos dentes,
Chamar-te com a voz de falsidade.
Os bandos do duce se divertiam contigo,
Sobre as ruínas de um país,
Quando as feras nazistas arrasavam cidades,
Lembravam-se de ti.
Quando na Europa os assassinos,
Condenavam os povos ao aniquilamento,
Quando no Oriente a cobra amarela,
Semeava a morte e a fome.
Em Munique te conspurcaram,
Proibiram um país de se defender,
Quando traidores apunhalaram um povo,
Estavas gravada na ponta da espada.
Então diga como posso falar de ti agora,
Apesar de estares raivosa, apesar de te aborrecer,
É difícil eu agora almejar por ti,
Quando a tua imagem está para mim tão denegrida.
Porém não pense que perdi a coragem,
É apenas um momento de desespero,
Encontro forças para lutar por ti,
Pelo amanhã para o qual dirijo a minha mente.
E, quando romper meus grilhões,
Também te libertarei,
Destruirei tua roupagem,
Farei roupas novas para ti.
Das tuas vergonhas te livrarei,
Armarei novamente a tua tenda,
Com pombas brancas a enfeitarei,
E te implantarei no mundo
FRIDN
Ó fridn, sheiner troim fun felker,
Du bist dos taierste geven far mir,
Ich hob, vi milionen mit dir gecholemt,
Vi es hobn doires geshtreibt tzu dir.
Ober ven ich darf vegn dir itzt redn,
Ich fil bloiz has, ich fil bloiz tzorn,
Vi a sheine iungfroi far mir gevein bist du,
Itzt vi a gasnfroi bist du gevorn.
Vos ieder einer ver es vil nor,
Meg fun dain hant dos blut noch trifn,
Mit farkriste tzein tzu dir er schmeichl,
Mit faltje lipn tut dich rufn.
Dem duces bandes hobn mit dir geshpilt zich,
Oif di churves fun a land,
Ven es hobn natzi chaies shtet farvisted,
In dir zei hobn zich dermont.
Ven es hobn merders in Europa,
Felker gemishpet tzum untergang,
Ven toit un unger es hot gezaiet,
Oif mizrech der geler shlang.
Men hot in Minchen dich geshendet,
A land farteidikn zich farverd,
Ven s’hobn fareter a folk dershtochn,
Bist du geven oisgekritzt oif shpitz fun shverd.
Nu zog, vi ken ich vegn dir itzt redn,
Chodj bist in kas, chodj dich fardrist,
S’iz shver mir itzter tzu dir tzu shtrebn,
Ven bist bai mir azoi farmist.
Ober mein nisht az ich hob dem mut farloirn,
S’iz fun fartzfaiflung bloiz a moment,
Es git mir koich far dir tzu kemfn,
Der morgn tzu vemen di oign ch’vend.
Un ven ch’vel tzeraisn maine keitn,
Vel ich dich dan oich bafraien,
Daine kleider ch’vel farnichtn,
Naie ch’vel far dir oifneien.
A paz queremos com fervor, fascismo nunca mais. Para sempre, José Aron Sendacz.


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