Viagem à Polônia (IV)

José Aron Sendacz, julho e agosto de 1954

No dia seguinte, acompanhado por vários colaboradores da redação e companheiros do BGF, fomos ao monumento aos heróis do Levante do Gueto, onde cumpri minha missão em nome do ICIB, colocando uma coroa de flores em nome dos judeus brasileiros.

Às 6 da tarde, juntamente com minha delegação, fomos recebidos para jantar no Clube dos Jornalistas poloneses.

Quarta-feira, dia 21 às 11 horas, houve a recepção oficial na Câmara Municipal, onde fomos recebidos por seu presidente, Albrecht. Ele nos saudou durante o banquete e contou como Varsóvia era logo após a libertação. Nos transmitiu o que já havia sido realizado e nos informou sobre os planos para a completa reconstrução de Varsóvia.

Numa conversa muito amigável, que depois tivemos com essa personalidade tão importante – o responsável pela reconstrução da capital – pudemos nos convencer em que e quanto a Polônia mudou. Com carinho e clareza, ele respondeu a todas as perguntas, não menosprezando nenhum detalhe, com a maior exatidão, citando cifras sobre todos os problemas e planos.

As paredes de mármore e os lustres de cristal do grande salão de recepção na Câmara Municipal, perderam sua antiga frieza e esnobismo e com calorosa hospitalidade receberam as várias delegações de trabalhadores, camponeses, funcionários e intelectuais.

Às cinco da tarde, fomos à principal solenidade do início das comemorações oficiais dos dez anos da República Popular Polonesa.

Essa solenidade foi realizada no Teatro Polski, com a presença de 700 a 800 pessoas, entre elas delegados, importantes dirigentesdo governo, ativistas do partido, pessoas com condecorações especiais por méritos com o país, por trabalho ou para o movimento; importantes comandantes militares, etc.

Às cinco em ponto, ao som do Hino Nacional, abriu-se a cortina. A solenidade foi presidida pelo Presidente da República Popular Polonesa – Alexandr Zawacki. No presidium estavam: o 1º Ministro Josef Cyrankiewicz, o Secretário Geral do PC Bierut, o Ministro da Defesa Rokosowski, o 1º Vice-Premier Hilar Minc, os ministros dirigentes do partido Ochab, Berman, Zembrowski e bem no centro, ao lado de Bierut, estava o chefe da delegação soviética – 1º Vice-Premier e Ministro da Defesa da URSS, marechal Nikolai Bulganin.

Quando em sua palavra de abertura, o presidente saudou Bulganin, todo o público espontaneamente, se ergueu e aplaudiu durante 15 minutos em pé, com um entusiasmo indescritível.

Num discurso de hora e meia, o secretário-geral do Partido, Boleslaw Bierut, relatou a situação da Polônia há 10 anos atrás, quando da entrada do Exército Vermelho juntamente com a divisão polonesa, e sobre a estabilização do Comitê para a Libertação Nacional. Contou sobre o Manifesto Histórico, que esse mesmo Comitê publicou em Lublin no ano de 1944, as enormes dificuldades do governo para iniciar a construção do socialismo num país totalmente destruído pelos nazistas, com inimigos externos e internos. Somente a teimosia e responsabilidade do partido e do governo, e a indestrutível força de vontade do povo, possibilitaram a realização de milagres, transformando o antigo país subdesenvolvido num dos países mais industrialmente desenvolvidos da Europa. Ele se deteve mais especificamente sobre as realizações no âmbito da cultura e educação.

Com simplicidade, clareza e lógica, Bierut conquista confiança e amor. Senti isso mais tarde, quando tive oportunidade de conversar com pessoas em vários lugares do país. Todos falavam sobre Bierut com respeito e reconhecimento.

Após Bierut, Bulganin discursou, expressando reconhecimento e prometendo ajuda desinteressada da URSS para a Polônia. Ambos foram muito aplaudidos.

A solenidade oficial foi encerrada com um variado programa artístico, com a participação de coros, orquestras, declamadores etc.

Na mesma noite, às 21 hs, houve uma recepção festiva, oferecida pelo primeiro ministro Josef Cyrankiewicz, no Palácio do Governo, onde nós, os delegados, éramos convidados.

Logo na entrada do Salão Principal, estava Cyrankiewicz e sua mulher, recepcionando com um aperto de mão a todos os convidados.

À 1 hora da madrugada fomos à Estação Ferroviária, porque na manhã seguinte deveríamos estar em Lublin para assistir ao desfile.

Quando lá chegamos, às 7 da manhã, fomos recebidos com orquestra e flores pelo Comitê de recepção.

Às 9 horas fomos até o palanque reservado aos delegados, para assistir ao desfile. O desfile foi aberto por Bierut. No palanque também se encontravam representantes diplomáticos, entre os quais, o embaixador de Israel. A parada durou 4 horas. Em primeiro lugar desfilaram os militares e depois os esportistas e jovens trabalhadores. Aproximadamente 100 000 jovens desfilaram ante nossos olhos, com bandeiras, faixas, fotos de lutadores pela liberdade já desaparecidos, fotos de campeões do trabalho, pessoas em uniformes esportivos, em vários trajes típicos das várias regiões da Polônia. Confraternizaram-se fábricas, cooperativas rurais, escolas e grupos artísticos. A enorme orquestra militar tocava ininterruptamente e a juventude marchava acompanhando o compasso da música. Vários grupos coreográficos desfilaram dançando. Notava-se em todos os rostos uma alegria, um orgulho e responsabilidade pelo futuro de sua pátria socialista.

Dizer que em toda minha vida eu ainda não havia visto um espetáculo tão maravilhoso, seria dizer pouco. Fui arrebatado pelo entusiasmo deles e tive vontade de descer do palanque e marchar juntamente com essa juventude alegre e orgulhosa.

Lublin hoje

Eles tinham do que se orgulhar. O resultado obtido nesses 10 anos da República Popular da Polônia foi muito variado e isso foi demonstrado nesse desfile, através de slogans, maquetes de fábricas e resultados dos planos alcançados e de muitas outras realizações.

Foi uma grande festa popular no pleno sentido da palavra.

Após o desfile passeamos pela cidade e às 16 horas voltamos a Varsóvia de onde, nessa mesma noite, viajamos para Gdansk.

Publicado por Iso Sendacz

Engenheiro Mecânico pela EESC-USP, Especialista aposentado do Banco Central, diretor do Sindicato Nacional dos Funcionários do Banco Central e do Instituto Cultural Israelita Brasileiro, membro da direção estadual paulista do Partido Comunista do Brasil. Nascido no Bom Retiro, São Paulo, mora em Santos.

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