DESIGUALDADE SOCIAL GLOBAL E A CRISE CLIMÁTICA

Bernardino Brito

A situação social em que a humanidade se encontra assusta a qualquer pessoa que esteja em perfeita ou em mínima condição de sanidade. Claro que estar em condições mentais normais, por si só, não garante que a pessoa irá admitir tal realidade triste e injusta. Isso porque também se exige um certo nível de indignação, sinceridade moral e caráter, se não tiver isso, ou se estiver sendo beneficiado por esse de sistema de morte, nada irá adiantar, pois continuará defendendo o modelo vigente com dentes e garras afiadas.

No entanto, também é triste constatar que, no meio de muitos pobres e da classe média assalariada, há quem se ponha, obviamente por pura alienação, como advogados de defesa daqueles que constroem sua própria ruína familiar. Esses grupos  políticos inconscientes de sua condição de classe, terminam se colocando como escudos vivos, protegendo os interesses dos que os mantém na pobreza e insegurança.

Vamos mergulhar um pouco nos números apresentados pelo Relatório Sobre Desigualdade Social de 2026, ou seja, aquele que reflete em que condições a humanidade entrará o Ano Novo que se aproxima, com velhos e grandes problemas.

Possamos imaginar a seguinte dinâmica de grupo escolar: uma pizza gigante que possui 100 pedaços para servir a 100 pessoas. Se dermos um comando para uma criança do ensino fundamental pedindo que alimente os demais alunos, ela certamente daria 1 pedaço para cada colega, pois sabe que não é justo que alguém fique sem comer.

Achar que crianças já nascem egoístas por natureza, é um pensamento próprio de um sistema que lucra com a acumulação infinita. Uma criança não nasce assim, ela aprende o individualismo no meio social em que vive. Não se pode confundir o desenvolvimento do “eu” que se baseia no instinto de sobrevivência, descobrimento e aprendizagem sobre o mundo, como categoria de individualismo, esse é influenciado pelo meio.

Bourdieu explica que a criança não nasce em um ambiente socialmente neutro, o que molda os comportamentos e pensamentos de sua personalidade, dando a elas um “senso comum”. Esse ambiente já está estruturado por relações de poder (habitus social) individual, naquilo que diz o ditado, “quem pode mais chora menos”. O sistema de coerção (violência) social se naturalizada nos indivíduos.

Muito bem! Agora vamos analisar o que o mundo adulto, herdeiro desse habitus, produziu no capitalismo contemporâneo neoliberal, exacerbadamente individualista e meritocrático. Verdade que não se trata de um fato novo, visto que já atravessamos na história outros modelos de sociedade de classes, como o escravismo e feudalismo.

Em todos esses modelos citados, a profunda desigualdade sempre esteve presente, mas é importante também sabermos, que em nenhuma dessas etapas de desenvolvimento da humanidade, houve tamanha concentração de riqueza como no capitalismo, embora, ele seja “evolutivamente” superior as sociedades anteriores. E mais, nunca a preservação do planeta e da própria humanidade esteve tão ameaçada. Vivemos um desequilíbrio econômico gigantesco e voraz, combinado a uma capacidade militar e tecnológica de autodestruição como nunca visto na história.

Iremos perceber pelos dados do relatório (WIR-2026) o resultado da sabotagem que as elites fazem a justiça social e aos programas de distribuição de renda pelo mundo (como o Bolsa Família e a política de valorização do salário-mínimo no Brasil), bem como as consequências do desmonte dos sistemas de previdência e de legislação trabalhista.

Lembram da pizza de 100 pedaços que citamos? Então! Atualmente no mundo, 10 pessoas (10%) estão abocanhando 75 pedaços (75% da pizza), enquanto 90 pessoas (90%), estão dividindo os 25 pedaços que sobram (25% da pizza).

Nem entre os 10% de pessoas mais ricas existe uma divisão uniforme e equilibrada, o relatório aponta que apenas 0,001% (56 mil pessoas) do grupo mais rico, detém três vezes mais riqueza do que metade (50%) da população mais pobre do globo.

Entristece, dói o coração, mas precisamos seguir a análise: os bilionários tiveram cerca de 8% de ganho real ao ano desde 1995, ou seja, já descontada a inflação, enquanto a metade da população mundial (50%) recebeu algo entre 2% e 4%. Nesse ano de 2025, por exemplo, a situação de ganho real  médio dos 50% mais pobres se encontra em 2%. Aliás, o ganho real médio dos 50% mais pobres só é positivo dado o significativo peso dos EUA e da Europa desenvolvida nesse mesmo agrupamento de cálculo, ou seja, os principais causadores ainda ajudam a distorcer os próprios índices de pobreza, dando uma ideia de que a coisa não está tão ruim.

A desigualdade intensificada pelo modelo capitalista neoliberal e meritocrático, aparece claramente refletido no sistema educacional global. Os mesmo que dizem que a educação é a saída para humanidade, são os mesmos que causam as dificuldades. Por exemplo, as crianças da África subsaariana (48 países) receberam em média 220 Euros/ano de investimento para educação, enquanto nos países da América do Norte e da Oceania, a média foi de 9.025 Euros/ano. Realmente a grande maioria das crianças não partem do mesmo ponto no capitalismo, e nem sequer estão próximos a um ponto médio.

Para não ter que fazer uma análise de cada país, extraí do relatório os dados de renda e riqueza, efetuando uma abordagem estatística e visual da brutal e alarmante concentração através dos dois gráficos (dados em PPC).

O relatório define o sentido preciso daquilo que utiliza para renda e riqueza:

  • Renda: refere-se ao fluxo de recursos que uma pessoa recebe em determinado período.

Inclui salários, aposentadorias, benefícios sociais, lucros empresariais, rendimentos de capital (juros, dividendos, aluguéis) e outras formas de ganho anual.

É aquilo que “entra” regularmente para sustentar o consumo e a vida cotidiana.

•          Riqueza (ou patrimônio): corresponde ao estoque acumulado de ativos que uma pessoa ou família possui.

Engloba propriedades (casas, terras), ativos financeiros (ações, títulos, poupança), bens de capital, além de rendas acumuladas que foram transformadas em patrimônio.

É aquilo que “fica” e pode ser transmitido entre gerações, funcionando como base estrutural da desigualdade.

Gráfico 1: Renda média mensal por região

Gráfico 2: Relação de Renda+Riqueza entre os 10% mais ricos do Topo e os 50% mais pobres da Base

OBS: Os dados estão em PPC – Paridade do Poder de Compra porque afasta os efeitos de conversão cambial e absorve o sistema de preços interno de cada país.

Uma outra análise reveladora pode ser extraída das condições do clima:

De onde escrevo, o Brasil, houve recentemente a Conferência do Clima, a COP-30, e o governo Lula foi muito atacado pelos adversários políticos, especialmente no segmento da extrema-direita.

Acontece que o governo brasileiro e de muitas outras nações, já compreenderam que o tema climático está entrelaçado com a desigualdade social mundial, e que são na verdade, temas inseparáveis.

As atividades do setor público mundial respondem por algo entre 30% e 40% das emissões, enquanto as propriedades de produção e consumo privado 60%. Importante perceber que quando falamos de consumo privado, estamos falando também dos hábitos da população, claro, sem deixar de considerar as classes sociais. Hábitos esses implantados pelos que controlam a economia e a política mundial.

Para efeito de análise na desigualdade social-ambiental, as emissões públicas são consideradas como neutras, óbvio que são importantes, mas normalmente estão associadas a distribuição de benefícios comuns a sociedade, serviços de saúde, educação, transporte público, infraestrutura, entre outros.

Os índices do relatório indicam que 1% dos mais ricos do planeta, emitem o dobro das emissões dos outros 90%, e mais, os que estão alocados no grupo dos 50% mais pobres são as maiores vítimas das enchentes, secas e fenômenos extremos.

O tema climático, portanto, se põe por justiça, como um elemento extremamente importante para debatermos a questão da desigualdade social e a sobrevivência do próprio planeta. Contudo, há que se ter o devido cuidado em relação aos países desenvolvidos que impedem as nações mais pobres de crescerem economicamente por meio de boicotes as suas mercadorias no mercado internacional, se utilizando de pretextos ambientais ou supostas medidas sanitárias.

É sabido também, que esses países gastam enormes fortunas em propagandas difamatórias contra os países em desenvolvimento, agindo através de ongs e ativistas de fachadas financiados por eles, e aplicam sanções econômicas a estados e empresas estrangeiras que não se encaixarem em seus critérios políticos, econômicos e comerciais, ferindo assim, a soberania e a economia nacional e o direito à autodeterminação dos povos das diversas nações.

Exigem dos outros aquilo que nunca estiveram dispostos a fazer em seus próprios países.

Também do autor: A correlação positiva entre a taxa de juros e a recuperação judicial; Para além do mito do setor público lento e Queda nos níveis de pobreza no Brasil.

Bernardino Brito é Diretor do CES – Centro Nacional de Estudos Sindicais e do Trabalho

Publicado por Iso Sendacz

Engenheiro Mecânico pela EESC-USP, Especialista aposentado do Banco Central, diretor do Sindicato dos Escritores no Estado de São Paulo e da Engenharia pela Democracia, conselheiro da Casa do Povo, Sinal, CNTU e Aguaviva, membro do Partido Comunista do Brasil. Foi presidente regional e diretor nacional do Sinal. Nascido no Bom Retiro, São Paulo, mora em Santos.

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