A Live do João da Fundação Maurício Grabois reuniu em 30.4.2024 o economista Nilson Araújo de Souza e o geógrafo Carlos José Espíndola, com mediação de Luiz Alves para analisar a contribuição de Ignácio Rangel ao pensamento econômico e à construção da Pátria brasileira.
De plano, Espíndola historiou a participação do jovem Rangel nas fileiras da Aliança Nacional Libertadora, cujo combate ao governo custou-lhe alguns anos de reclusão na capital federal e depois no seu Maranhão natal. Em sua vida, estudou as questões econômicas do ponto de vista dos trabalhadores, os planos de metas e a industrialização de base do país, para desaguar no que ficou como conhecido por projetamento econômico.
Rangel tratava a economia brasileira em sua dualidade: as relações de produção internas e externas do país, entendendo que o país poderia crescer tanto nos ciclos de expansão como de retração do capitalismo. O crescimento econômico era propício à criação da indústria própria, enquanto a recessão favorecia a atividade agroexportadora.
Adepto da tese de a inflação ter causa na insuficiência da oferta e não no excesso de demanda, como teorizavam próceres de outras correntes do pensamento econômico, Rangel entendia que ao lado do planejamento da economia como um todo, era pertinente apresentar milhares de projetos que permitissem aumentar a oferta, aproveitando pontos ociosos para suprir os estrangulamentos em outros setores.
Se a geoeconomia fez dormitar o projetamento, com o fim da União Soviética, o ascenso dos EUA e o advento do neoliberalismo, a China trouxe as ideias rangelistas à prática novamente: conforme Elias Jabbour, o projetamento chinês envolve 96 grandes conglomerados estatais investindo em áreas diversas e aproximando o país da fronteira tecnológica na maiora delas, concluiu o professor Carlos.
Já Nilson, que conviveu com Rangel nos anos 1980, lembrou que no Brasil muitas relações de produção aconteceram simultaneamente, em razão das particularidades regionais.
Ele explicou que a dualidade, mais que o projetamento, foi a marca do estudioso avaliado: a especificidade do Brasil consiste na posição subalterna do país nas relações de troca internacionais. Se no início do século 20 as crises internacionais afetavam de sobremaneira a economia brasileira, o processo foi amenizado com a industrialização da era Vargas. A reversão do processo nos tempos atuais é a principal condicionante do atraso do desenvolvimento brasileiro nos dias de hoje.
Souza enfatizou a primazia do planejamento sobre o projetamento, que eleva a produtividade particular da ação econômica, no bojo do desenvolvimento geral da economia.
O economista lembrou que o valor de uso das coisas é mais importante que o valor de troca, sendo a força de trabalho a mercadoria especial que cria novos valores de uso, tanto para o produto final e seus insumos como o processo produtivo em si.
Luiz Alves lembrou da importância que Rangel dava à ciência para o alcance da economia do bem estar e trouxe ao debate as questões apresentadas pelos internautas, em especial as teorias da dependência de Marini e Fernando Henrique Cardoso, cujos esclarecimentos podem ser conferidos na segunda metade da conversa.


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