
Dora Nassif no Jornal GGN
A arte e a cultura brasileiras não nasceram como ornamento nem como luxo. Elas nasceram como forma de existência, de resistência e de elaboração do mundo.
Talvez por isso sejam tão potentes, tão estudadas e tão respeitadas fora do país, muitas vezes mais do que dentro dele. O Brasil construiu uma das produções artísticas mais originais do século XX e XXI sem nunca ter tido, de fato, um projeto consistente de valorização cultural à altura dessa grandeza. Nossa arte cresceu apesar da desigualdade, apesar da censura, apesar do abandono institucional. E justamente por isso se tornou inventiva, sofisticada e profundamente política, mesmo quando fala de amor, cotidiano ou festa.
No cinema, isso é especialmente visível. Desde o Cinema Novo, o Brasil ocupa um lugar central na história do cinema mundial. O trabalho de Glauber Rocha é estudado em universidades estrangeiras ao lado do neorrealismo italiano e da Nouvelle Vague francesa. Diretores como Walter Salles, Hector Babenco e, mais recentemente, Kleber Mendonça Filho são nomes respeitados em festivais, mostras e debates internacionais. Grandes cineastas estrangeiros conhecem profundamente o cinema brasileiro, o citam como referência e reconhecem sua força estética e política. Ainda assim, muitos brasileiros nunca assistiram a esses filmes, não por falta de qualidade ou relevância, mas por ausência de circulação, memória e valorização interna.
O impacto recente de Ainda Estou Aqui e a expectativa em torno de O Agente Secreto mostram que existe público, sensibilidade e interesse quando o país é convidado a olhar para sua própria história com coragem e densidade artística. Esses filmes não criam algo novo do zero, eles apenas reacendem uma tradição que nunca deixou de existir. Ainda assim, esse movimento de reconhecimento é insuficiente perto da riqueza do nosso acervo cinematográfico.
O mesmo acontece com a música brasileira. Poucos países produziram uma música tão influente, complexa e estudada quanto o Brasil. A bossa nova redefiniu o jazz moderno, a MPB se tornou objeto de análise acadêmica no exterior e nossos ritmos são constantemente apropriados, reinterpretados e, muitas vezes, plagiados sem o devido reconhecimento. Harmonicamente sofisticada, ritmicamente rica e liricamente profunda, a música brasileira sempre dialogou com o mundo em pé de igualdade. E aqui há um dado bonito e importante. Apesar de todos os ataques à cultura, os jovens brasileiros têm escutado cada vez mais música brasileira, redescobrindo a MPB, o samba, os discos antigos e as referências como afirmação de identidade e não como nostalgia. O problema nunca foi desinteresse popular. O problema é a falta de uma política consistente de memória cultural.
Valorizar a arte brasileira não é romantizar nem negar contradições. É compreender que não existe identidade nacional sem memória artística. Enquanto outros países transformam sua produção cultural em patrimônio simbólico e educacional, o Brasil frequentemente abandona seus arquivos, descontinua políticas públicas e trata cinema, teatro e artes como supérfluos. Ainda assim, a cultura insiste, sobrevive e continua produzindo obras que dialogam com o mundo.
Por isso é fundamental dizer com clareza que todo brasileiro deveria conhecer melhor seu próprio cinema. Não como obrigação intelectual, mas como formação sensível e histórica. Filmes como Deus e o Diabo na Terra do Sol, Terra em Transe, Vidas Secas e Macunaíma ajudam a entender o Brasil profundo e suas contradições. Obras como Pixote, Eles Não Usam Black-Tie e Central do Brasil revelam um país atravessado por desigualdade, afeto e dignidade. Já o cinema contemporâneo, com títulos como Cidade de Deus, O Som ao Redor, Aquarius, Bacurau e Que Horas Ela Volta?, mostra que o Brasil segue produzindo cinema de altíssimo nível estético e político. E, no campo do documentário, trabalhos como Cabra Marcado para Morrer e Edifício Master são fundamentais para compreender nossa memória, nossa voz e nossas ausências.
No fundo, o Brasil não precisa provar que tem cultura. Isso o mundo já sabe. O que falta é o país olhar para sua própria produção artística com menos desconfiança
No fundo, o Brasil não precisa provar que tem cultura. Isso o mundo já sabe. O que falta é o país olhar para sua própria produção artística com menos desconfiança e mais responsabilidade. Nossa arte já falou com o mundo inúmeras vezes. Agora, ela precisa ser mais escutada por nós mesmos.
Deus e o Diabo na Terra do Sol — direção: Glauber Rocha
Terra em Transe — direção: Glauber Rocha
Vidas Secas — direção: Nelson Pereira dos Santos
Macunaíma — direção: Joaquim Pedro de Andrade
Pixote — direção: Hector Babenco
Eles Não Usam Black-Tie — direção: Leon Hirszman
Central do Brasil — direção: Walter Salles
Cidade de Deus — direção: Fernando Meirelles e Kátia Lund
O Som ao Redor — direção: Kleber Mendonça Filho
Aquarius — direção: Kleber Mendonça Filho
Bacurau — direção: Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles
Que Horas Ela Volta? — direção: Anna Muylaert
Cabra Marcado para Morrer — direção: Eduardo Coutinho
Edifício Master — direção: Eduardo Coutinho
Ainda Estou Aqui — direção: Walter Salles
O Agente Secreto — direção: Kleber Mendonça Filho
Dora Nassif – Advogada, Mestra em Direitos Humanos e Doutoranda em Ciências Jurídicas e Políticas pela Universidad Pablo de Olavide, em Sevilla.
