Não há pátria no crime, no roubo e na mentira

Uma rápida pesquisa no arquivo da internet (Wayback Machine, nome em inglês) nos levou à edição de 17.6.2003 do HP e à manchete em destaque, cujo inteiro teor da matéria é transcrito abaixo. Carlos Lopes avaliava o então governo estadunidense de Bush como o pior da história até então. Um governo que talvez esteja servindo de parâmetro a Trump para que o atual titular da Casa Branca lhe possa superar, em termos de afronta ao desenvolvimento economico-social dos EUA e à convivência pacífica, colaborativa, inclusiva e ambientalmente responsável dos povos do mundo. Vale a releitura.

Nenhum outro ocupante da Casa Branca – e não faltaram competidores nesse triste campeonato – conseguiu, e em tão pouco tempo, ignorar de forma tão alienadamente completa os interesses do país, do povo e da nação norte-americana, quanto Bush. Nenhum conseguiu deixar tão escancaradamente claro o desprezo da casta que sufoca aquele país pelos valores que o povo norte-americano julga que são os seus.

Bush conseguiu, em três anos, transformar uma ditadura encoberta – como era o Estado dos EUA desde a morte de Roosevelt – numa ditadura aberta. Tornou a Casa Branca um tugúrio escandaloso de piranhas da indústria armamentista, tubarões do petróleo e outros vigaristas – fraudadores de balanço de empresas, subornadores e propineiros contumazes, todos circulando por lá em plena luz do dia. E, por último, mandou para o matadouro alguns milhares de soldados.

Exatamente por causa disso, nunca um ocupante da Casa Branca foi mais fraco, mais débil. Nem os interesses do conjunto do imperialismo norte-americano ele consegue defender. Ao contrário, os põe em risco em todas as partes do mundo – e, inclusive, dentro dos EUA.

 HERANÇA  

Os norte-americanos sempre acreditaram que estavam lutando por alguma coisa chamada liberdade. Não se trata apenas de ilusão induzida pela mídia controlada por meia dúzia de magnatas. Para que essa ilusão exista, é preciso que tenha havido, no passado, alguma base real.

Com efeito, no século XVIII, a insurreição contra o ocupante inglês foi um acontecimento tão estrondoso que, poucos anos depois, influenciaria os revolucionários franceses que empreenderam a Grande Revolução, alvorecer moderno da luta pela liberdade e pelo progresso. Já no século XX, ao fundar a República do Vietnã, o povo daquele país começou sua constituição citando a Declaração de Independência dos EUA, escrita por Jefferson.

Décadas após Washington, Jefferson, Franklin e outros, quando a independência dos EUA teve que ser completada com o fim da escravidão, Lincoln tornou-se um dos patronos da Humanidade. O mesmo Lincoln que, antes de eleito, havia sido um firme opositor da guerra de conquista contra o México. O mesmo Lincoln que, no campo de batalha de Gettysburg, falou da “obra inacabada que os que ficaram vivos têm pela frente para que estes mortos não tenham morrido em vão, e para que esta nação, sob a autoridade de Deus, consiga renascer em liberdade, e para que o governo do povo, pelo povo, e para o povo, não pereça sobre esta terra”.

Da mesma forma, quando o nazismo ameaçava acabar com séculos de civilização humana, os EUA, presididos pelo grande presidente Franklin Roosevelt, somou-se à URSS e aos demais povos do mundo para derrotar Hitler.

Essa herança – e citamos apenas três pontos cardinais dela – sempre foi aquela de que o povo americano, ainda que confuso, ainda que massacrado mentalmente pela mídia da canalha imperialista, se orgulhava, e se orgulha.

Porém, a quadrilha de Bush começou, já antes da posse, avacalhando – pois não há termo mais exato – com a Corte Suprema, até nas aparências. Depois dela ser usada para colocá-lo no poder contra a vontade dos eleitores e contra a Constituição, tornou-se impossível dizer que existe uma instituição, nos EUA, que corresponda ao significado da palavra Justiça.

 ESTADO FASCISTA 

Depois, o bando de rapinantes acabou com qualquer ilusão de democracia. Estabeleceu – e em letra de forma – um Estado fascista aberto, que persegue, prende, tortura e, confessadamente, mata, sem julgamento, sem defesa e sem lei nenhuma.

Não se trata somente, coisa que não é de hoje, de “operações encobertas”, de crimes sanguinários que a CIA executa – e depois nega, atribuindo-os exatamente às suas vítimas.

Trata-se de “câmaras de execução”, anunciadas por membros do governo, e previstas em decreto assinado por Bush. E não só para os prisioneiros mantidos incomunicáveis em Guantánamo. Como denunciou o escritor Gore Vidal, tenta-se estender as mesmas medidas para dentro dos EUA, e para prender, torturar e matar cidadãos norte-americanos. Por que os americanos seriam diferentes dos afegãos ou iraquianos? A agressão da quadrilha de Bush é contra o Iraque, contra o Afeganistão e – como se pode perceber por esse projeto – contra os EUA. É contra qualquer um que seja decente, que não se submeta.

Os nossos leitores sabem que nunca consideramos o Congresso dos EUA como alguma coisa além do que ele é – um antro de lobbies e corrupção, com alguns cidadãos decentes no meio disso. Mesmo assim, a encenação de respeito por ele – e nem sempre era encenação – que os antecessores de Bush mantinham, não deixava de ter algum aspecto de consideração, ainda que formal, pelos chamados representantes do povo e, portanto, pelo próprio povo.

 MENTIRA 

O bando de Bush não tem esses escrúpulos: mentiu descaradamente ao Congresso sobre o suposto poder da Al Qaeda; falsificou relatórios sobre as supostas armas de destruição em massa que diziam haver no Iraque; mente sobre tudo, não importa que o tema seja legislação social, orçamento, juros, impostos, privilégios a escroques, ou promoção de assassinatos.

Em suma, quanto às instituições americanas, quanto ao povo americano, quanto aos interesses verdadeiramente nacionais dos EUA, nada há de mais anti-americano do que Bush e caterva.

A agressão ao Iraque ou ao Afeganistão serve apenas à reduzida canalha em torno de Bush. Nem ao conjunto dos capitalistas americanos ela serve. Apenas aos ladrões mais desavergonhados. Quanto ao povo norte-americano, seu papel nisso é ter os filhos voltando para casa embalados em sacos pretos.

Isso, certamente, o povo percebe crescentemente, e é inevitável que perceba. Não por acaso, Rumsfeld quer que as chamadas “forças especiais” prevaleçam sobre o exército regular, ou seja, quer que o lumpen, a marginália – em suma, alguns grupos de assassinos psicopatas – predomine sobre o que ainda existe de povo nas forças armadas dos EUA.

 DESONRA 

A mentira, o roubo, o crime – nada há de mais antagônico à coletividade, de mais anti-social, de mais, portanto, oposto à pátria e ao sentimento de pátria. Por isso mesmo, Bush tenta-se apresentar como “patriota”. Até mesmo denominou o conjunto de medidas fascistas que expeliu de “leis patrióticas”.

Porém, há 200 anos, alguém já observou que é da natureza dos canalhas esconder-se atrás de palavras como patriotismo.

Patriotas foram Washington, Jefferson, Lincoln e Roosevelt. Patriotas são os que hoje denunciam, se opõem a essa canalha, ao fascismo, ao roubo, à mentira e ao crime. Patriota, simplesmente, é quem é a favor da pátria – isto é, do povo, da nação. Não quem é contra ela, quem quer desonrá-la e, portanto, não tem honra.

Certamente, a história americana não é feita só de Lincolns e Roosevelts. Na presidência, abundam há muito as mediocridades, os cretinos e os aleijados morais – os Mckinleys, Tafts, Hardings, Coolidges, Hoovers, Eisenhowers, Jonhsons, Nixons, Reagans, etc. Mas são os Lincoln e Roosevelt que formaram e que são a herança do povo americano. Pois foram eles, e não os canalhas, que o representaram dignamente. Quem se lembra hoje, nos EUA ou em qualquer parte do mundo, de Taft ou de Harding?

Porém, mesmo esses, nenhum conseguiu chegar perto do atual Bush, seja em estupidez, seja no desastre a que está levando – a rigor, já levou – o país. Por mais idiotas que fossem, sabiam que, ultrapassados certos limites, estariam apenas apressando o próprio fim – e o do grupo do qual faziam parte.

Mas Bush – isto é, a trupe em torno dele – é idiota demais para percebê-lo. Seu destino, quando tiver que ajustar contas com o povo norte-americano, será, portanto, bem pior do que o de seus colegas do passado.

O título do artigo de 2003 talvez também caiba a certos elementos que conspiram hoje contra o Brasil.

Publicado por Iso Sendacz

Engenheiro Mecânico pela EESC-USP, Especialista aposentado do Banco Central, diretor do Sindicato dos Escritores no Estado de São Paulo e da Engenharia pela Democracia, conselheiro da Casa do Povo, Sinal, CNTU e Aguaviva, membro do Partido Comunista do Brasil. Foi presidente regional e diretor nacional do Sinal. Nascido no Bom Retiro, São Paulo, mora em Santos.

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