
A ficção científica “Geração do Futuro” (The pod generation, 2023, título original), disponível na TV por assinatura, por muitos mais bem poderia ser classificada no gênero “terror”, não fosse o alerta que representa sobre os riscos da inteligência artificial para a espécie humana.
No século 22 já está disponível a unidade uterina, onde os zigotos se desenvolvem em fetos fora do útero materno até que possam, como se diz hoje, “vir ao mundo”. O dispositivo em forma de ovo é recheado de líquido amniótico e dispõe de intenso controle do nascituro, além de um cardápio alimentar e sonoro variado. O procedimento alivia as mulheres dos enjôos, varizes, dores do parto e, principalmente, evitam sua ausência ao trabalho, tornando-as “verdaderamente livres”, de acordo com a propaganda do prestador do serviço.
Sim, os equipamentos são propriedade privada de uma empresa que o desenvolveu e a fila de espera é longa e o custo elevado, levando parte das mulheres do futuro à opção natural de gestação dos filhos. Já não há saúde nem educação pública no tempo retratado no filme.
Os personagens centrais são um casal em que a mulher trabalha com inteligência artificial em uma “Alexa” laboral e o marido é um botânico das antigas, que tem um viveiro no apartamento em que moram e outro na faculdade que leciona, mas é pressionado por essa a substituir as plantas naturais por projeções holográficas.
Pressionada pela chefe a não interromper a carreira na empresa também dona da central uterina, ela convence o resistente marido a se servirem do método extra-corporal, e a trama conta a interação de ambos com o feto durante os meses do procedimento, ajudados por uma terapeuta não-humana, já que a profissão de psicóloga já não mais existia entre os humanos.
Um dos problemas do processo é que as crianças não sonham, atividade considerada inútil no processo evolutivo, mas a empresa está lançando uma capsula com sonhos “simples, curtos e divertidos” – qualquer semelhança com os conteúdos viralizantes das redes sociais não será mera coincidência. A empresa também oferece educação às crianças que não fazem arte, mas podem opinar sobre as criações dos robôs aos quais os seus cérebros são conectados.
O casal tinha uma casa de campos isolada e há muito não utilizada – afinal, as grandes cidades são dotadas de células da natureza, onde é possível, por uma moeda, respirar por um instante o cheiro do campo -, próxima à praia e em meio a um arboredo natural, e resolve, mesmo com a proibição da empresa, proprietária do útero artificial, fazer o parto em casa. Sem o código de destravamento do aparato, recorre ao “modo antigo” para abri-lo – força e ferramentas manuais. O bebê vem à luz e as partes da unidade uterina são embalados e levados de bicicleta à longínqua estação do correio mais próxima.
Como a vida do casal com a criança prossegue em meio à natureza ficou para um próximo filme.
Em post scriptum, duas considerações humanas sobre os sonhos.
É proibido pisar nos sonhos
(autor desconhecido)
Sejamos o pesadelo dos que querem destruir os nossos sonhos
Ernesto Che Guevara

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