
Karl Marx
A terceira manifestação da Associação Internacional de Trabalhadores trata da história e significado da Comuna de Paris propriamente dita. A apresentação de Engels e as duas primeiras cartas podem ser conhecidas aqui.
I – Marx registra a decisão do proletariado, ao proclamar a república em 4 de Setembro de 1870, de aceder ao poder o deputado Thiers e seu séquito, em razão da necessária defesa nacional ante à iminente ameaça prussiana de invasão de Paris.
O sujeito, bem como seus ministros mais próximos e o prefeito da polícia, era notório carreirista que ficou milionário às custas da exploração da classe operária francesa. Traiu também a defesa da independência nacional da França e atentou contra a democracia, transferindo o governo a Versalhes e se pondo de acordo com os invasores para um banho de sangue em Paris.
II – No segundo bloco o tema central é a manobra de Thiers para desarmar Paris, com a ajuda dos rurais e dos invasores prussianos. Em traição à palavra dada pelo parlamentar da Assembleia Nacional, um banho de sangue acometeu a capital, não só contra os integrantes da Guarda Nacional mas contra multidões e famílias indefesas, seguido de condecorações aos assassinos.
A Guarda, por sinal, só teve 0,1% de adesão ao governo corrupto de Thiers e seus ministros ex-presidiários, e se recusava a cumprir ordens de atirar contra o povo da cidade. Deu passe livre aos dissidentes que quisessem abandona-la em direção à Versalhes, exceto para dois comandantes, criminosos de larga data.
III – Marx discorre os feitos da Comuna de Paris, fundada em 18.3.1871, verdadeiro governo nacional francês, ao mesmo tempo esteio internacional da emancipação do trabalho. O pouco tempo de que dispunham os revolucionários franceses ante à repressão versalhesa mostrou a superioridade moral do aparato dirigido pelos operários.
Não só os industriários, como também os camponeses, comerciantes e artesãos conheceram um governo dirigido por operários que representava os seus interesses de classe, ao passo que a república de Thiers nada mais fazia que enriquecer os latifundiários e financista, além dos corruptos governantes, sempre no rumo de substituir o regime democrático burguês por um novo império, com base, inclusive, no ocupante prussiano, que servia também como apoio para desarmar Paris.
A eleição de todos os servidores públicos, demissíveis a qualquer tempo, e a limitação dos seus salários; a substituição do Exército e da Polícia pelo operariado em armas, a Guarda Nacional; a separação do Estado da Igreja, inclusive na esfera educacional; e a entrega aos produtores das fábricas fechadas por incapacidade de seus antigos donos de tocar os negócios estavam entre as medidas revolucionárias da Comuna. A Thiers restava somente as falsas palavras ditas na Assembleia Nacional, em defesa do passado, contra a emancipação do trabalho.
IV – A invasão de Paris pelas forças de Thiers foi por este postergada até que negociasse a paz com Bismarck, reconhecendo o domínio prussiano sobre províncias e assuntos de governo da França, em troca dos gendarmes prisioneiros e do encurtamento do prazo de pagamento da indenização de guerra.
Quando da ocupação, um banho desmedido de sangue foi produzido, incendiando-se inclusive casas com famílias dentro. O próprio cardeal de Paris, retido refém pela Comuna, foi sacrificado em nome da hipocrisia burguesa de manter a República sob o tacão do governo dos apropriadores do produto do trabalho escravizado. Marx enfatiza a grandeza da Comuna, a principal dentre as milhares espalhadas pela França, primeiro protótipo da emancipação do trabalho, cujo heroísmo ficou assim gravado:
“Os membros do Comité Central da Guarda Nacional, bem como a maior parte dos membros da Comuna, são os espíritos mais activos, mais inteligentes e mais enérgicos da Associação Internacional dos Trabalhadores;… homens que são profundamente honestos, sinceros, inteligentes, devotados, puros e fanáticos no bom sentido do termo.”
Conclui a edição 1891 duas notas: (1) relato de massacres por correspondentes jornalísticos estrangeiros; e (2) carta da Associação Internacional dos Trabalhadores a jornal inglês, esclarecendo que os textos pós-Comuna editados pelo governo francês, conclamando autoridades estrangeiras a por fim à internacional, faziam citações falsas de suas publicações.

3 comentários em “A guerra civil na França – parte 2”