A autoridade monetária e os “Pandora Papers”

O doutor em economia Paulo Kliass, especialista em políticas públicas da União, publicou no Vermelho sobre os haveres no exterior de ministros de Estado, depositados nos chamados paraísos fiscais, sob o título Os crimes de [Paulo] Guedes e [Roberto] Campos. Diz ele:

As revelações trazidas a público recentemente pelo movimento “Pandora Papers” são prá lá de muito graves. Trata-se de um vazamento articulado de informações confidenciais que foram enviadas ao Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos (ICIJ, na sigla em inglês), tendo por fonte as bases de dados de contas bancárias e depósitos financeiros de natureza similar mantidas junto aos chamados paraísos fiscais. As extensas listas dão a volta pelos continentes e apresentam nomes de atuais e antigos Chefes de Estados, ministros e ex-ministros, milionários, empresários e demais personalidades do globalizado mundo das finanças e do poder.

A participação tupiniquim nesse universo faz companhia a figuras como o Presidente do Azerbaijão e o Rei da Jordânia. Além disso, há suspeitas e denúncias envolvendo o Presidente Putin da Rússia, o presidente do Quênia e o ex primeiro ministro britânico Tony Blair. A lista de empresas brasileiras é extensa, com destaque para o grupo Prevent Senior, envolvido até o pescoço nos escândalos recentes da covid em revelações obtidas na CPI do Senado Federal.

Ao longo dos últimos anos, foram divulgados vários dossiês desse tipo, contendo informações consideradas secretas nesse espaço sensível que tangencia a política, os negócios e os crimes. Em 2013 foi revelado o “Offshore Leaks”, em 2016 veio à tona o “Panama Papers” e em 2017 foi a vez do “Paradise Papers”. As razões para que esse tipo de aplicação financeira suspeita ainda seja realizada pode variar de caso para caso, de país para país, mas o fato inegável é que ninguém procura esse tipo de conta se não tiver nada a esconder ou nenhum imposto a sonegar. Os atrativos ficam por conta dos benefícios oferecidos pelos chamados “paraísos fiscais”, que se propõem a assegurar o sigilo das informações e a conceder a isenção tão desejada de tributos nas operações que oferecem à seleta clientela.

Prossegue recordando a sequência de escândalos dos últimos 40 anos, explica sobre o esquema offshore de, no mínimo, elisão fiscal, para concluir pedindo a demissão da dupla nata do Conselho Monetário Nacional, em razão de suposto conflito de interesses:

Existe um conjunto de regras consolidadas no documento chamado “Código de Conduta da Alta Administração Federal”, aprovado em 2000 e que deveria servir como guia orientador para o comportamento dos ocupantes de cargos no alto escalão governo. São dispositivos que também deveriam nortear as decisões da Comissão de Ética Pública (CEP) nesse quesito. O disposto no § 1º do inc. II do art. 5º é inequívoco:

(…) “§ 1º – É vedado o investimento em bens cujo valor ou cotação possa ser afetado por decisão ou política governamental a respeito da qual a autoridade pública tenha informações privilegiadas, em razão do cargo ou função, inclusive investimentos de renda variável ou em commodities, contratos futuros e moedas para fim especulativo, excetuadas aplicações em modalidades de investimento que a CEP venha a especificar.” (…)

Ora, sob tais condições, fica evidente os benefícios diretos e indiretos que foram direcionados para os recursos que ambos detinham e ainda detêm em contas nos paraísos fiscais. Em qualquer país minimamente preocupado com a definição dos limites entre os interesses públicos e privados essa questão já teria sido solucionada no momento da divulgação do escândalo. (+968 palavras, Vermelho)

Já o Apito Brasil, informativo do Sindicato Nacional dos Funcionários do Banco Central, dá conta de o Fonacate ter denunciado “na Comissão de Ética Pública da Presidência da República, em face da manutenção de empresa offshore em paraíso fiscal por parte do ministro da Economia, Paulo Guedes. Na representação, a assessoria jurídica do Fórum alega conflito de interesses”. No entanto, o Sinal avalia ser distinta a situação do Presidente do BC, tema objeto ainda de estudo pelo sindicato.

Como verificou Kliass, o assunto é pouco debatido nos jornais. Às dúvidas já suscitada, cabe acrescentar mais uma, de natureza mais política que fiscal ou legal: se os titulares do Conselho Monetário Nacional não consideram adequado depositar suas poupanças financeiras nas instituições autorizadas a funcionar e supervisionadas pelo BC, quem vai confiar no sistema financeiro nacional?

Publicado por Iso Sendacz

Engenheiro Mecânico pela EESC-USP, Especialista aposentado do Banco Central, diretor do Instituto Cultural Israelita Brasileiro, conselheiro da CNTU e Aguaviva, membro da direção estadual paulista do Partido Comunista do Brasil. Foi presidente regional e diretor nacional do Sinal. Nascido no Bom Retiro, São Paulo, mora em Santos.

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