Guerreiro Ramos e a sociologia brasileira

Guerreiro Ramos

Alberto Guerreiro Ramos, mulato nascido na Bahia, foi assessor do presidente Getúlio Vargas em seu segundo governo e um dos fundadores do Instituto Superior de Estudos Brasileiros (ISEB). No centro oficial de estudos da nacionalidade, foi um dos ideólogos do trabalhismo, durante os governos Juscelino e Jango.

Segundo Ramos, era moda entre muitos de seus colegas sociólogos latino-americanos filiar-se incondicionalmente à correntes de pensamento externas ao país e à região, relevando a realidade local concreta nas avaliações da sociedade. Em debate de 1953 no II Congresso continental de Sociologia, propôs em primeiro lugar:

As soluções dos problemas sociais dos países latino-americanos devem ser propostas tendo em vista as condições efetivas de suas estruturas nacionais e regionais, sendo desaconselhável a transplantação literal de medidas adotadas em países plenamente desenvolvidos.

Em seu artigo “Sociologia enlatada versus sociologia dinâmica” – o capítulo 2 de Pensamento Nacional-desenvolvimentista -, ele explica que “a alienação da sociologia no Brasil decorre de que ela não é, em regra, fruto de esforços tendentes a promover a autodeterminação de nossa sociedade”.

Um dos efeitos da dominação ideológica exógena, ainda não superada, referia-se ao negro. Segundo Guerreiro Ramos, “nossa socioantropologia do negro está toda ela viciada por um tratamento alienado do tema. O negro no Brasil, país cuja matriz demográfica mais importante é o contingente corado, tem sido visto como algo estranho ou exótico na comunidade, o que só se explica na base de um equívoco etnocentrismo”.

É sobre “o problema do negro na sociologia brasileira” que trata o capítulo 1 da obra citada. Ramos, em 1957, combate as correntes sociológicas racistas dizendo que o negro seria um “problema” ou “assunto” somente se fugisse a alguma norma social, o que não era e não é o caso em termos de extrato social nem de religiosidade.

Como destaca Nilson Araújo na apresentação do Pensamento, “para Guerreiro Ramos, a questão do negro não existe separada da questão nacional – pelo contrário, a chamada questão do negro é a questão nacional (destaque no original)”.

Ramos destacava Os Sertões, de Euclides da Cunha (1902) como mais relevante contribuição tendente a liquidar” o bilinguismo, “a ambivalência psicológica do brasileiro, e a identificá-lo consigo próprio”.

E resgatava Graciliano para resumir a postura subserviente que pululava na sociologia: “quem não tem vergonha na cara, não pode ser sociólogo”. Fácil perceber que, passadas seis décadas, a espécie ainda perdura entre nós.

Dos mais renomados sociólogos do planeta, Guerreiro Ramos foi, em 1964, perseguido por suas ideias nacionalistas e morreu no exílio.

Publicado por Iso Sendacz

Engenheiro Mecânico pela EESC-USP, Especialista aposentado do Banco Central, diretor do Instituto Cultural Israelita Brasileiro, conselheiro da CNTU, membro da direção estadual paulista do Partido Comunista do Brasil. Nascido no Bom Retiro, São Paulo, mora em Santos.

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